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Actas del XI Coloquio Internacional de Geocrítica

LA PLANIFICACIÓN TERRITORIAL Y EL URBANISMO DESDE EL DIÁLOGO Y LA PARTICIPACIÓN

Buenos Aires, 2 - 7 de mayo de 2010
Universidad de Buenos Aires

 

ENTRE A "REGENERAÇÃO" E "ENCENAÇÃO": O RIO DE JANEIRO DE OLAVO BILAC E LIMA BARRETO

 

Artur Monteiro Leitão Júnior

Mestrando em Geografia - Universidade Federal de Uberlândia - UFU

artur_ml_junior@yahoo.com.br

 

Rita de Cássia Martins de Souza Anselmo

Professora Adjunta 1 do Curso de Geografia - Universidade Federal de Uberlândia - UFU

ritacmsou@ig.ufu.br

 


Entre a "regeneração" e "encenação": o Rio de Janeiro de Olavo Bilac e Lima Barreto (Resumo)

A intelligentsia brasileira, no final do século XIX e início do século XX, se viu obrigada a encarar um período de entronização de posturas e incorporação de novidades técnicas, impostas pela necessidade de civilidade e modernidade que o momento histórico exigia a fim de que o país se alinhasse nos rumos do progresso. Essas mudanças acabaram gerando agudas tensões sociais. Nesse processo, o caso da reforma urbana do Rio de Janeiro desse período tornou-se emblemático e aqui será trabalhado a partir de uma oposição entre dois egrégios e clássicos autores da Literatura brasileira: Olavo Bilac e Lima Barreto, representantes de distintas concepções de mundo para os destinos que se queria para a Capital - e, por extensão, para o Brasil.

Palavras-chave: Olavo Bilac; Lima Barreto; Literatura; Rio de Janeiro; Modernização


Between the "regeneration" and "staging": the Rio de Janeiro of Olavo Bilac and Lma Barreto (Abstract)

The Brazilian intelligentsia, in the late of nineteenth and early twentieth century, has had to face a period of enthronement of postures and incorporating new techniques imposed by the need for civility and modernity that the historical moment demanded to the country aligns itself in the paths of progress. These changes generated acute social tensions. In this process, the case of urban reform in Rio de Janeiro of this period has become emblematic and here will be worked from a collision between two egregious and classic authors of the Brazilian literature: Olavo Bilac and Lima Barreto, representatives of different world conceptions to destinations that was wanted for the Capital - and, by extension, for the Brazil.

Keywords: Olavo Bilac; Lima Barreto; Literature; Rio de Janeiro; Modernization.


Introdução

Tem-se aqui como pressuposto que a recuperação das condições históricas, sociais e políticas de um momento histórico, manifestas no imaginário e materializadas nos documentos históricos e nos discursos de maneira geral, é de fundamental importância para a compreensão de uma dada formação territorial. Este trabalho é fruto de uma investigação acerca do ordenamento urbano do Rio de Janeiro no final do século XIX e início do século XX, que se valeu dos princípios e do aparato teórico-metodológico da geografia histórica e da história do pensamento geográfico.

O momento histórico em questão, em consonância aos debates filosófico-científicos à época, é marcado profundamente pela necessidade de o Brasil ser reconhecido mundialmente como nação civilizada, desvinculando-o dos estigmas de atraso e de indolência e ociosidade de seu povo. Para tanto, instaurou-se, enquanto princípio, a necessidade de modernidade, a qual estava fundamentada em dois aspectos: os materiais - a partir da remodelação e do desenvolvimento técnico; e os ideais - calcados nos códigos civilizatórios. O Rio de Janeiro desse período, capital da recém-instaurada República e a cidade mais importante do país nos aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, representava efetivamente um "laboratório" dos projetos de (re) ordenação e (trans) formação da urbe, prelúdios daquilo que se pretendia para o Brasil.

Encarada enquanto necessidade premente, o ideal da civilidade/modernidade, portanto, permeou todos os interstícios culturais, instaurando um clima intelectual que encontrou vazão, sobretudo, nas obras literárias. A Literatura é, assim, um suporte privilegiado para o resgate das produções discursivas: enquanto discurso, as obras literárias devem estar ancoradas no contexto histórico, social e ideológico de seus autores (Fernandes, 2008), os quais são representantes de um grupo social, se configurando enquanto indivíduos expressivos, conforme propôs Goldmann (1979); por outro lado, a produção dos literatos é realizada na relação dialética entre as manifestações de anseios e desejos de foro íntimo, a liberdade poética e as revelações das tensões e contradições histórico-sociais de um determinado contexto espaço-temporal.

Em suma, a (trans) formação e a produção da cidade do Rio de Janeiro ficaram, no começo do século XX, expostas a duas posições diametralmente opostas: a dos adesistas ao cosmopolitismo e à consagração do progresso material enquanto ideal coletivo, defensores do embelezamento e da remodelação paisagística e cultural da capital federal; e a daqueles que viam na reforma urbana uma encenação discriminatória, pleiteando um processo de reformulação urbana mais amplo, no qual a sub-urbe também estivesse incluída. A primeira sagrou-se vitoriosa.

Este estudo se debruça, então, no deslindamento da trajetória da intelligentsia brasileira no final do século XIX e início do século XX, a qual, por suas diferentes posturas ante as novidades e modificações impostas pela necessidade de civilidade/modernidade, acabou gerando agudas tensões sociais; o caso da reforma urbana operada no Rio de Janeiro desse período tornou-se emblemático e será trabalhado aqui a partir de uma oposição entre dois egrégios e clássicos literatos brasileiros: Olavo Bilac e Lima Barreto, representantes de distintas concepções de mundo para os destinos que se queria para a Capital - e, por extensão, para o Brasil.

O exercício intelectual no Brasil do final dos oitocentos aos primeiros anos da República[1]

A partir dos três últimos decênios do século XIX, a intelligentsia brasileira buscou no cenário cultural europeu um modelo para engendrar um futuro progressista e liberal para o Brasil, instaurando-se, enquanto palavras de ordem dessa "geração modernista de 1870", a condenação das estruturas fossilizadas do Império e a redenção a partir da Abolição, da República e da Democracia, segundo Sevcenko (2003). Há de se lembrar, no entanto, que o liberalismo propugnado por esses intelectuais não se coadunava necessariamente com os ideais democráticos, cabendo também, no âmbito da efetivação liberal, uma postura autoritária, como parece ter acontecido na prática no quadro histórico nacional. Buscando resumir o espírito dos homens de letras da época, o principal núcleo dos escritores cariocas cunhou a expressão "mosqueteiros intelectuais", para se referirem a si mesmos (Sevcenko, 2003). Tal denominação sintonizava-se aos anseios que essa geração tinha para com a transformação das estruturas nacionais, calcada na integração e inclusão dos grupos adventícios à nova ordem pleiteada; o que se seguiu, portanto, foi o ensejo de um ideal utilitário extremado, ocasionando uma centralização das mudanças na capacidade de ação de tais intelectuais, cujas criações e reproduções culturais só adquiriam um estatuto louvável quando imbricavam em mudanças sociais.

Autênticos representantes dos ideais da época, esses intelectuais - oráculos dos destinos do Brasil - estabeleciam a necessidade de uma modernização das estruturas social e política do país, abrindo duas frentes de reformas: a construção de uma nação e a remodelação do Estado, estando este até então condicionado ao servilismo político. Sevcenko (2003), entretanto, também aponta que, ao lado da atitude reformista, aparecia uma postura salvacionista, derivada do temor à perda de soberania de todo o território nacional, ou de parte dele, em virtude dos projetos neocoloniais, das questões e tensões raciais, ao mesmo tempo patrocinadoras e agudizadas pelo crescimento da imigração, e da existência dos "vazios demográficos", atrativos para as posses e conquistas ilegítimas.

Com uma maior heterogeneidade histórica e uma menor sobriedade política em relação aos Estados-nação da Europa - os quais, ao lado dos Estados Unidos, constituíam-se nos genuínos exemplos de civilização e sociedade a serem, na medida do possível, incorporados pelas terras tupiniquins - notaram-se dois tipos de reações entre os intelectuais: a sublimação das dificuldades em uma transmutação da sensação de inferioridade em um mito de superioridade, promissor de um grandioso futuro para o país (alimentando-se assim, o mito do "gigante adormecido"); e a análise detalhada da realidade do país a fim de retirar-lhe a essência, ou seja, de "conhecer-lhe as características, os processos, as tendências e poder encontrar um veredicto seguro, capaz de descobrir uma ordem no caos do presente, ou pelo menos diretrizes mais ou menos evidentes, que permitiriam um juízo concreto sobre o futuro." (Sevcenko, 2003, p.106). Nesse contexto é que se empreenderam buscas implacáveis pela determinação de um povo específico que pudesse representar fidedignamente a nação ou que, ao menos, a simbolizasse, norteando as reflexões acerca da realidade nacional.

O empenho nos estudos dos múltiplos aspectos constitutivos da sociedade brasileira alinhou-se à mitificação da Ciência - intensificada na Belle Époque[2] - instituindo-lhe uma aura prometéica de legitimação do poder ante a descrença para com as elites tradicionais. Nesse clima, aliaram-se os fenômenos do crescimento da urbanização e da internacionalização das sociedades tradicionais, cujas capitais converteram-se em centros cosmopolitas, absorvedores da produção cultural e editorial das mais importantes metrópoles européias e promotores de verdadeiras europeizações dos costumes; o que se assistiu, então, foi a difusão de certas correntes de pensamento da Europa, tornadas virtualmente universais, como o simbolismo francês ou a arquitetura monumental art-noveau.

Todavia, mesmo com o advento da Abolição (1888) e da República (1889), esses intelectuais não foram aceitos como os salvadores e condutores das reformas nacionais, transformando-se, então, em paladinos frustrados, cujas missões em prol da modernização, se bem que vitoriosas, acabaram por lhes reservar um papel histórico marginal, muitas vezes traduzido em frugalidade material e miséria econômica. Consolidando-se em meio a um processo caótico e dramático, as instituições republicanas instauraram-se com máculas indeléveis para os castos anseios da intelligentsia nacional, uma vez que estavam marcadas pelos adesistas sem ideais sinceros, pela superficialidade dos novos valores, pelas riquezas movediças e pelas disputas vigorosas por cargos rendosos e por poder; a "mediocracia" (ou "regime da mediocridade") era o adjetivo que melhor transladava essa nova época social e política. Desprezados politicamente, a própria estrutura social da nação - a partir de um patente analfabetismo crônico - impetrava obstáculos praticamente intransponíveis para o desenvolvimento cultural; o desprestígio imposto pela elite oligárquica e pelo analfabetismo tornou-se, portanto, o gatilho para a busca de práticas sociais alternativas e/ou para uma postura crítica às ações dos poderosos do momento.

O momento histórico, mesmo que tenha conspurcado o ideal republicano dos escritores, abriu novas oportunidades, ainda impensadas, para os mesmos, sobretudo em decorrência da estabilização política e econômica do regime na época da "República dos Conselheiros": os autores emergiram como adornos necessários para, em meio às transformações da cidade do Rio de Janeiro (Regeneração), consolidar a imagem de austeridade do Brasil, retratado a partir de uma composição em que predominava uma sociedade ilustrada, merecedora da credibilidade européia. Sevcenko (2003) ainda aponta que a proximidade da sede do governo oferecia aos letrados diversas possibilidades adicionais: empregos burocráticos, cargos de representação, comissões e delegações diplomáticas, além da tutela, por parte do Estado, de organizações culturais e institutos superiores, sem contar o mecenato promovido pelo Ministério das Relações Exteriores aos literatos notáveis.

Contudo, o fenômeno de maior revérbero no comportamento do grupo intelectual foi, sem dúvida, a ascensão do "novo jornalismo": sinal de esclarecimento e civilidade, o consumo cotidiano dos jornais só foi permitido pelas novas técnicas de impressão e de edição[3], barateando a imprensa e resultando, em última instância, na criação de uma "opinião pública" urbana, sedenta das orientações e dos juízos de valor dos literatos que compunham as redações. Os jornais tornaram-se, portanto, os principais sorvedouros dos literatos da época, garantindo-lhes certas condições de reprodução financeira; paralelamente, a Academia Brasileira de Letras, com a virtude de consagrar os escritores e conseguir-lhes credibilidade nas principais casas editoras da Capital e a tutela do Estado, tornou-se uma fortaleza de estabilidade bastante almejada. Nesse contexto de pequena ascensão de seu poder de ação social, os intelectuais passaram a pregar uma ampliação da alfabetização para as classes mais baixas, em uma duvidosa generosidade, efetivamente ancorada na perspectiva de exercer uma tutela sobre uma ampla base social.

Süssekind (1987) sintetizou as novas possibilidades, abertas pelos novos tempos das técnicas e da modernização, de atuação dos literatos:

"Além de ampliar o número de interlocutores para o texto literário, a colaboração na imprensa se apresentava, no período, como a única trilha concreta em direção à profissionalização para os escritores. Havia o emprego público, o magistério, a diplomacia, a vinculação a campanhas - como a da Alfabetização, a do Serviço Militar Obrigatório, a do Ensino Primário ou a da entrada do Brasil na Primeira Grande Guerra -, o trabalho em livros escolares ou paradidáticos, as conferências, fontes de renda também possíveis. E, se Bastos Tigre, com mais freqüência, ou Bilac e Emília de Meneses obtinham alguns rendimentos graças aos seus versos-reclame e, às vezes, graças a algumas legendas para fitas de cinema, foi para o jornalismo que se dirigiu a maior parte dos homens de letras, no país, na virada do século." (Süssekind, 1987, p.74).

Esse período de relativo prestígio da literatura acabou por gerar uma descaracterização dos intelectuais e literatos tradicionais, instituindo-lhes como característica comum o pedantismo, de modo que o estatuto do intelectual - bem como do doutor - tornou-se uma condição imprescindível para penetrar nas fímbrias da política, da diplomacia e para se conseguir as cavações e os empregos públicos.

Ante as novas condições socioeconômicas e políticas do recém-instaurado regime republicano, Sevcenko (2003) deslindou três comportamentos distintos assumidos pela intelligentsia: o primeiro grupo era composto por aqueles que produziram a fissura mais aguda no seio do grupo intelectual, uma vez que estes literatos se soldaram aos arrivistas da sociedade e do cenário político, logrando de enorme sucesso e prestígio pessoal, elevados a postos proeminentes no regime e à condição de orientadores supremos do público urbano; era, portanto, a camada dos "vencedores", individualizada nas figuras de Coelho Neto, Olegário Mariano e Olavo Bilac, cujas escritas eram impessoais e inofensivas, adaptadas aos gostos burgueses do grande público e repontada de retórica, típica da moda literária da Belle Époque.

O segundo grupo era o dos "derrotados", permanecendo à margem da sociedade por falta de condições de adaptação ou por apego pertinaz às suas raízes de pensamento; neste, era possível notar uma sutil clivagem interna, engendrando dois tipos comportamentais: aqueles que aceitavam a miséria com resignação diante da imoralidade dos novos tempos, fazendo de seu opróbrio a própria marca de exposição para a inquietação dos seus inimigos; e aqueles que, inconformados com o novo status quo, reagiam com obstinada combatividade, buscando um novo plano de reformas e sagrando-se, portanto, como os legítimos herdeiros do grupo dos "mosqueteiros intelectuais". Dentre estes, destacou-se Lima Barreto.

As metamorfoses do Rio de Janeiro: a urbe como cartão-postal da Belle Époque

Sevcenko (2003) aponta que as mudanças econômicas, políticas e sociais encorpadas pela sociedade carioca na mudança do regime monárquico para o republicano aconteceram com uma celeridade sem precedentes, alterando o ritmo de vida social. Privilegiadamente situado na intermediação das fortunas econômicas cafeeiras, o Rio de Janeiro, no começo do século XX, a partir de sua posição de centro político nacional, favoreceu um processo de acumulação interna de recursos, incorporados nos setores comerciais e financeiros, e também aplicados, em menor escala, no setor industrial. A condição de maior centro comercial foi alçada definitivamente por meio da cristalização de uma rede de comunicações nucleada no Rio: a cidade era o ponto principal de uma rede ferroviária e realizava uma relativa integração nacional a partir do comércio de cabotagem. A polarização da Capital se estendia aos setores financeiros e demográficos: sede da maior Bolsa de Valores, do Banco do Brasil e de grande parte das casas bancárias nacionais ou estrangeiras, o Rio era o maior centro populacional à época, ofertando às indústrias nascentes, que ali se instalaram em maior número, um grande contingente de mercado consumidor e mão-de-obra.

Com a perda da primazia como principal porto marítimo de exportação - repassada para o Porto de Santos, alavancado pelo crescimento produtivo cafeeiro do Oeste Paulista -, o Porto do Rio de Janeiro respondia por uma movimentação portuária crescente no sentido das importações e do comércio de cabotagem; o resultado foi a formação de um cosmopolitismo nas modas, nos bens de consumo e nos modelos de prestígio europeus, centrado, sobretudo, em Paris. Tão logo a febre de consumo se alastrou pela camada urbana, ficou evidente o anacronismo entre a velha estrutura urbano-sanitária carioca e as demandas e anseios pelos novos tempos, sendo necessário, pois, realizar uma metamorfose que atingisse as essências físicas e morais da urbe para edificar uma imagem que inspirasse credibilidade aos investidores e imigrantes europeus. A ordem do momento era, então, acompanhar o progresso, colocando o Brasil sob o status de país civilizado. Por isso, foram alvos diletos do processo de transformação da urbe: o obsoleto cais portuário; a morfologia tipicamente colonial das conexões entre os centros de distribuição comercial e o terminal portuário; as áreas pantanosas, as quais transformavam a febre tifóide, a varíola, o impaludismo e a febre amarela em endemias indeléveis; e a comunidade de mestiços, que, vivendo na imundice e promiscuidade, intimidava os europeus, quer seja nos seus investimentos financeiro ou mesmo na promoção de uma imigração caucasiana.

Os eventos dos primeiros anos do novo regime serviram para purgar a estrutura social e econômica em favor dos valores burgueses: as agitações de 1897 praticamente extinguiram os últimos focos monarquistas organizados, a repressão de 1904 dispersou a oposição jacobina e ocasionou o fechamento da Escola Militar da Praia Vermelha. Consolidado e estável, o regime foi politicamente neutralizado pela "política dos governadores", implantada no quadriênio de Campos Sales (1898-1902), e financeiramente saneado pelos empréstimos internacionais: estava desenhado o desfecho da remodelação paisagística e cultural da cidade, alinhado à consagração do progresso enquanto ideal coletivo (Sevcenko, 2003).

O grupo hegemônico pôde, então, erigir monumentos de ovação aos triunfos de seus ideais: o primeiro dos monumentos se dá com a inauguração da Avenida Central (1904) e com a Lei de Vacina Obrigatória, representantes da transfiguração da Capital a partir da demolição de casarões coloniais e imperiais e da substituição das ruelas em favor das amplas avenidas, ornamentadas com palácios de mármore e cristal e símbolos de um novo décor urbano, adequado à empáfia da elite socioeconômica. O segundo monumento é representado pela Exposição Nacional do Rio de Janeiro, a qual glorificou definitivamente os ideais industriais, o progresso e a riqueza material desmedida. Segundo o historiador supracitado, portanto, a metamorfose urbana se deu nas essências física e moral, sendo regida por quatro princípios:

"[...] a condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória à sociedade tradicional; a negação de todo e qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante; uma política rigorosa de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será praticamente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e um cosmopolitismo agressivo, profundamente identificado com a vida parisiense." (Sevcenko, 2003, p.43).

Assim, as mudanças na materialidade urbana também ensejaram mudanças na mentalidade carioca, nos figurinos e figurantes: insurgiram padrões novos de pensamento e de valores; emergiu com grande força a figura dos acadêmicos, substitutos de elementos populares e tradicionais; e a sobrecasaca e cartola pretas deram lugar ao estilo chic ou smart.

Benchimol (1990) coloca que, no movimento de mutação carioca, dezenas de milhares de pessoas, sobretudo gente pobre e trabalhadora, ficaram desabrigadas, desalojadas pela paisagem decalcada no ecletismo europeu, imponente e opulento; a "cirurgia" urbana, então, restringiu-se, em grande parte, ao centro, ensejando uma renovação realizada em dois atos: a desapropriação de frações sociais, apartadas de áreas citadinas determinadas, e a transferência dessas mesmas áreas, transformadas e valorizadas, para novas frações sociais. Nesse contexto, novos nexos de comunicação e circulação foram inaugurados entre o centro da urbe - ressignificado a partir da aquisição de uma função moderna de núcleo comercial, financeiro e administrativo - e as zonas de expansão, ao norte e ao sul, das áreas industriais ou de novas moradias.

Destarte, ao lado das obras do centro da cidade e da estrutura portuária, uma gama complexa de leis, aplicadas draconianamente, passou a vigorar, disciplinando a esfera social, no contexto urbano. Em muitos casos, a aplicação jurídica se deu nos moldes de uma operação militar, pois intentava aplicar uma ética que não condizia muito com a realidade culturalmente heterogênea carioca, uma vez que o espaço público do Rio era ocupado por capoeiras, ex-escravos, biscateiros, carroceiros, vendedores ambulantes (de perus, vísceras, leite retirado diretamente das vacas, loterias etc.), trapeiros, rezadeiras, entre outros; além disso, a Capital se configurava como o cenário de convivência de imigrantes e migrantes brasileiros - estes vindos, sobretudo, dos ambientes rurais, mal adaptados ao estilo burguês cosmopolita que se queria para a cidade. Em nome de uma Cruzada pró-civilização, o prefeito Pereira Passos condenou velhas usanças:

"Comecei por impedir a venda pelas ruas de vísceras de reses, expostas em tabuleiros, cercados pelo vôo contínuo de insetos, o que constituía espetáculo repugnante. Aboli, igualmente, a prática rústica de ordenharem vacas leiteiras na via pública, que iam cobrindo com seus dejetos, cenas estas que, ninguém, certamente, achará dignas de uma cidade civilizada. [...] Mandei, também, desde logo, proceder à apanha e extinção de milhares de cães que vagavam pela cidade, dando-lhe o aspecto repugnante de certas cidades do Oriente, e isso com grave prejuízo da segurança e da moral públicas.2Tenho procurado pôr termo à praga dos vendedores ambulantes de bilhetes de loteria, que, por toda a parte, perseguiam a população, incomodando-a com infernal grita e dando à cidade o aspecto de uma tavolagem. Muito me preocupei com a extinção da mendicidade pública, o que mais ou menos tenho conseguido, de modo humano e eqüitativo, punindo os falsos mendigos e eximindo os verdadeiros à contingência de exporem pelas ruas sua infelicidade [...]"[4]. (Passos, 1903, p.32-3 apud Benchimol, 1990, p.277-8).

Ao lado dessas, podem ser citadas outras medidas disciplinadoras, tais como: a proibição de cuspe nas ruas e nos bondes, de soltura de balões, de fogueiras nas ruas ou mesmo de andar descalço e sem camisa; o ponto alto, todavia, foi a proibição do entrudo, substituído pela batalha das flores, e a derrubada de quiosques do centro em favor do estímulo às lojas do five o'clock tea. Tudo isso tencionava não ferir a imagem do progresso e da dignidade com a qual se buscava revestir o cenário da capital.

As obras de melhoramento, embelezamento e saneamento tinham como princípio atender as funções políticas do Rio enquanto sede do Estado brasileiro, consolidando-o economicamente como periferia agroexportadora na divisão internacional do trabalho; nesse sentido, o trabalho de Benchimol (1990) tendeu a apresentar as reformas urbanas cariocas como um bloco monolítico, segundo o qual o grande capital privado (representado, sobremaneira, pela burguesia cafeeira paulista, pelo capital bancário internacional, pelas grandes companhias empreiteiras, especuladoras e construtoras, ou porções do capital comercial, financeiro e industrial) se associou ao Estado brasileiro do início do século XX sob o propósito de "aburguesar" a urbe por meio de ações autoritárias e em detrimento das camadas populares. Essa característica de denúncia foi percebida por Azevedo (2003).

Este autor, contudo, enfatiza que as transformações urbanas do Rio de Janeiro entre 1903 e 1906 se deram a partir de duas intervenções urbanísticas distintas: a do Governo Federal, projetada pelo ministro Lauro Müller e implementada pelo engenheiro Francisco Bicalho; e a conduzida pela Prefeitura do Rio de Janeiro por meio de Francisco Pereira Passos[5]. Ambos os projetos foram articulados pelo então Presidente da República, Rodrigues Alves, sob o propósito de melhorar a imagem, a sanidade e a economia da capital federal, estimulando a imigração, sobretudo européia, para o abastecimento das lavouras cafeeiras paulistas, em crise de mão-de-obra desde a Abolição; foi sob esses desígnios que Pereira Passos, indicado pessoalmente pelo presidente, governou legalmente os seis primeiros meses de seu quadriênio com a Câmara Municipal fechada - período que ficou conhecido com a "ditadura" Pereira Passos, resultante de uma prerrogativa concedida por Rodrigues Alves. Paralelamente, o presidente designou Bicalho, por intermédio de Lauro Müller - à época, ministro da Viação e Obras Públicas -, para realizar a modernização do Porto do Rio de Janeiro e a reestruturação urbana da região portuária, a fim de facilitar a circulação das mercadorias.

Azevedo (2003) argumenta que, mesmo articuladas com as obras executadas no plano federal, a intervenção urbana municipal estribou-se basicamente no prolongamento e alargamento de um conjunto de ruas da urbe, modificando o sistema viário citadino; esse sistema não ficou restrito ao centro e ao sul do Rio de Janeiro, uma vez que também buscava interligar distintos locais, situados nos subúrbios cariocas, ao centro, locus de trabalho da maioria dos operários e centro exemplar do modus vivendi a ser aprendido e copiado. Portanto, era para o centro da cidade - espaço civilizado por excelência - que todos os habitantes deveriam convergir, aprendizes da ética urbana, disseminando-a por toda a urbe; o centro exercia, pois, uma espécie de função pedagógica, impetrada pelos cenários grandiloqüentes recém edificados.

Em suma, o prefeito Pereira Passos pleiteava, referenciado em valores engendrados no seio da modernidade européia, a criação e manutenção de uma civilidade urbana burguesa, ciosa em relação à individualidade e à regulamentação do uso do espaço público pelos agentes privados. Além disso, esses valores europeus modernos estavam referenciados no fomento a atividades culturais e estéticas, no respeito ao patrimônio histórico e no respeito à lei e à ordem pública estabelecida pelo Estado, encabeçado por uma elite política ilustrada e que desconsiderava, em grande medida, os elementos de tradição popular. Subjacente aos objetivos de oferta de melhores condições de vida e de elevação espiritual do operariado, as reformas da Regeneração promovida pela prefeitura mostravam o seu caráter conservador, uma vez que se alinhavam às concepções elitistas de preocupação com o rápido crescimento da população carioca e com o potencial para as tensões e conflitos sociais que esse crescimento implicava; apesar desse caráter conservador, é inegável que o projeto do prefeito esteve ancorado em uma proposição direcionada à integração urbana[6].

A "Regeneração" e a "encenação" nas letras de Olavo Bilac e Lima Barreto

É notável que o exercício intelectual esteve sempre atrelado intimamente ao seu contexto histórico, o qual é condição precípua - mas não absoluta - para explicar os discursos produzidos pelos literatos. Assim, a partir do entendimento de que as mudanças no final dos oitocentos e início do século XX infestaram a atmosfera intelectual brasileira, a Literatura se transforma num campo privilegiado de análise na medida em que, conforme Candido (1987), em um país de analfabetos, como era o caso do Brasil, tal categoria artística exerceu uma função devoradora, atuando como instrumento de imposição cultural e meio de integração das manifestações artísticas locais às tradições ocidentais. Nesse sentido, é possível entrever nas entrelinhas dos literatos - aqui tratados paradigmaticamente nas figuras de Olavo Bilac e Lima Barreto - manifestações ideológicas que davam vazão a pensamentos de setores ou grupos distintos e contrários no âmbito da intelligentsia brasileira; o caso das transformações urbanas do Rio de Janeiro, no início do século XX, se torna patente para evidenciar a existência de tensões e a contraposição de posições - que, de modo simplista, podem ser retratadas segundo um dualismo positivo e negativo - no seio da intelectualidade nacional.

Observadores de sua época e partícipes do "novo jornalismo" que se levantava com toda a força no início do século XX, os cronistas Bilac e Lima Barreto comentavam a nova era de metamorfoseamento material e imaterial da Capital com posições diametralmente opostas[7]:

Entusiasmado, Olavo Bilac interpretou o renascimento do centro do Rio, erguido a partir dos escombros da cidade imperial, com euforia, em sua primeira crônica para a revista Kosmos:

"O Brasil entrou - e já era tempo - em uma fase de restauração do trabalho. A higiene, a beleza, a arte, o conforto já encontraram quem lhes abrisse as portas dessa terra, de onde andavam banidas por um decreto da indiferença e da ignorância coligadas. O Rio de Janeiro, principalmente, vai passar, e já está passando, por uma transformação radical. A velha cidade, feia e suja, tem os seus dias contados. Esta revista acompanhará - se o público quiser auxiliá-la - essa lenta e maravilhosa metamorfose da lagarta em borboleta."[8] (Bilac, 1904 apud Magalhães Júnior, 1974, p.255-6).

O poeta, cronista, conferencista, autor didático, romancista e publicitário Bilac entendia as mudanças da Capital como símbolos de reabilitação moral e material; para este literato era, então, apropriada a figura da Regeneração, com a qual os propagandistas da nova era cunharam as reformas urbanas federais e municipais do Rio no final do século XIX e início do século XX.

A encenação da Regeneração foi toda motivada pela destruição da velha cidade, feição da urbe da velha sociedade imperial; dos escombros dessa destruição deveria surgir uma nova estrutura urbana e social, lapidada pelos ideais civilizatórios e patenteada pelas feições de mármore e cristal. É com certo sadismo que Bilac professou com um efusivo contentamento a demolição da antiga cidade, aberta para o novo tempo:

"No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbrio. A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas abafava esse protesto importante. Com que alegria cantavam elas - as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali estavam compreendiam bem o que elas diziam, no seu clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte!"[9] (Bilac, 1904 apud Sevcenko, 2003, p.44).

Visualizando nas fachadas de mármore e cristal e nas leis disciplinadoras da época a redenção carioca e, por extensão, o início do progresso brasileiro, o cronista Bilac escreveu, em sua crônica de novembro de 1904 na revista Kosmos, uma vociferada crítica às agitações contra a vacina e à ignorância popular, para ele causa da revolta:

"As arruaças deste mês, - nascidas de uma tolice e prolongada por várias causas - vieram mostrar que nós ainda não somos um povo. Amanhã, um especulador político irá, pelos becos e travessas, murmurar que o governo tenciona degolar todos os católicos, ou fuzilar todos os protestantes, ou desterrar todos os homens altos, ou encarcerar todos os homens baixos. E a gente humilde aceitará, como verdade, essa invenção imbecil, como aceitou a invenção da vacina com sangue de rato pestiferado."[10] (Bilac, 1904 apud Magalhães Júnior, 1974, p.263).

Essa ignorância popular foi aproveitada para que, na mesma crônica, o cronista se deblaterasse contra o crônico analfabetismo, considerando que "não há povo, onde os analfabetos estão em maioria.", levando-o a concluir que "não sei bem para que servirá dar avenidas, árvores, jardins, palácios a esta cidade - se não derem aos homens rudes os meios de saber o que é civilização, o que é higiene, o que é dignidade humana".

E não era somente o analfabetismo que o preocupava: a crise habitacional gerada pelas ações de remodelação urbana também se configurava como um problema humano a ser resolvido: "E fala-se em arrasar todo o morro do Castelo... Arrase-se o morro, que já há muitos anos devia ter sido arrasado! Mas, antes de arrasá-lo, digam-me, pelo amor de Deus, para onde se há de mudar toda a gente que o habita, [...][11]" (Bilac, 1905 apud Magalhães Júnior, 1974, p.272-3). Para este intelectual, o problema deveria ser resolvido com a construção de casas operárias às margens das estradas de ferro, o que se traduziria em trabalho, orgulho para a raça e civilização.

No entanto, as crônicas bilaquianas deixam entrever que os problemas sociais não eram óbices que poderiam impugnar a marcha do progresso, pois o que se queria aqui era a imagem de um Torquato de Alvear tupiniquim, em alusão ao reformador da cidade de Buenos Aires: conforme Freire (2003), os meios intelectuais ressentiam-se da falta de um redentor da urbe, sobretudo quando o presidente Campos Sales, atuando explicitamente para mobilizar a imprensa e a opinião pública em seu favor, convidou uma comitiva de jornalistas para acompanhá-lo em sua viagem à Argentina; o resultado foi a geração de uma euforia, sobretudo em Olavo Bilac, a partir da observância das mudanças operadas no seio da face física de Buenos Aires. Defronte a essas mudanças, Bilac passou a condenar, em seus textos na Gazeta de Notícias, o atraso e o acanhamento da capital nacional, que parecia ter se fechado para o "ímpeto civilizatório" com que se revestira a "nova capital platina".

Por isso, com o surgimento do prefeito Pereira Passos no cenário político carioca, enquanto artífice das mudanças planejadas pela administração Rodrigues Alves, e com a Regeneração em curso, as comparações do Rio de Janeiro com Buenos Aires tornaram-se inevitáveis:

"Daqui a pouco tempo, dentro de dois anos, quando a Avenida Central e a Avenida Beira-Mar estiverem concluídas; quando o Rio de Janeiro se encher de carruagens e de automóveis; quando começarmos a possuir a vida civilizada e elegante que Buenos Aires já há tantos anos possui - também nessa época já não nos lembraremos do que era a nossa vida tediosa e vazia, sem teatros, sem passeios, de distrações limitadas à maledicência dos homens na rua do Ouvidor e à pasmaceira das senhoras nas janelas..."[12] (BILAC, 1905 apud Magalhães Júnior, 1974, p.270).

Preenchendo a lacuna do líder civilizador no imaginário político do Rio de Janeiro, o prefeito Pereira Passos, todavia, não foi unanimidade em todos os setores intelectuais: de acordo com Freitas (2005), a crítica audaz às transformações encontrou no literato Lima Barreto um de seus maiores símbolos, pois, sensível às diversidades e desigualdades da Primeira República, o escritor pleiteava um espaço urbano mais amplo, no qual a sub-urbe também estivesse incluída:

"Houve grande contentamento nos arraiais dos estetas urbanos por tal fato. Vai-se o mostrengo, diziam eles; [...] É que eles estavam convencidos da sua fealdade, da necessidade de seu desaparecimento, para que o Rio se aproximasse mais de Buenos Aires. A capital da Argentina não nos deixa dormir. Há conventos de fachada lisa e monótona nas suas avenidas? Não. Então esse casarão deve ir abaixo. O Passos quis; o Frontin também; mas, a desapropriação custaria muito e recuaram. [...] Esse furor demolidor vem dos forasteiros, dos adventícios, que querem um Rio-Paris barato ou mesmo Buenos Aires de tostão."[13] (Barreto, 1911 apud Freitas, 2005, p.1).

 A opção pela mimesis de Buenos Aires não poderia passar despercebida pelo literato, o qual, ante tal situação de comparação em prol da aparência moderna, não deixava de destilar sua ironia e seu sarcasmo:

"A obsessão de Buenos Aires sempre nos perturbou o julgamento das coisas. A grande cidade do Prata tem um milhão de habitantes; a capital argentina tem longas ruas retas; a capital argentina não tem pretos; portanto, meus senhores, o Rio de Janeiro, cortado de montanhas deve ter largas ruas retas; o Rio de Janeiro, num país de três ou quatro grandes cidades, precisa ter um milhão; o Rio de Janeiro, capital de um país que recebeu durante quase três séculos milhões de pretos, não deve ter pretos. [...]O Rio civiliza-se!" (Barreto, 1915).

Com esse tom ácido, desdenhoso para com os símbolos das mudanças, o escritor carioca contrapôs-se à civilidade/modernidade importada vencedora da Belle Époque Tropical, percebendo as contradições e o mal-estar que as transformações do espaço urbano do Rio de Janeiro e a chegada dos novos padrões republicanos acarretavam. Com essa argúcia, Lima Barreto valeu-se como um defensor da preservação da história e da memória do Rio, ao mesmo tempo em que combateu com devoção a pesada herança colonial de uma sociedade escravocrata, refletida na perpetuação das desigualdades sociais e da privação dos direitos dos negros africanos e seus descendentes (Freitas, 2005). O que realmente incomodava o literato era a aceleração das mudanças, revelando um turbilhão em meio ao qual os ideais perdiam os seus referenciais e seus sensos morais apurados. No extravasamento dessa sua angústia, ele escreveu: "De uma hora pra outra, a antiga cidade [Rio de Janeiro] desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia."[14] (Barreto, 1956, v.VII, p.106 apud Sevcenko, 2003, p.36).

É sob esse caráter cenográfico que Lima Barreto encara as metamorfoses urbanas, uma vez que considerava que a realidade socioeconômica excludente era mantida, o status quo permanecia, a despeito das ações de embelezamento da suposta Regeneração. Nesse processo, o falso progresso era mascarado em progresso e a pseudo-modernidade se revestia em modernidade.

Considerações Finais

Versando a partir de um tempo histórico determinado e de um dado lugar socioideológico, as letras de Olavo Bilac e Lima Barreto adquiriram repercussões diferentes: a história mostra um Bilac "vencedor" e um Barreto "perdedor". Ao resgatar os discursos vencedores e derrotados, é possível identificar em quais modelos e visões de mundo a sociedade pautou-se para se edificar e, complementarmente, para manifestar-se a partir das materialidades espaciais; assim, é possível estabelecer o que somos a partir das opções políticas historicamente assumidas, de modo que, de posse dessa compreensão, torna-se possível pleitear um novo modelo de sociedade, calcada em novos valores e padrões de formação e ordenamento territorial: para desejar, enfim, um novo presente.

Compreender a cidade do Rio de Janeiro na contemporaneidade requer que nos afastemos no tempo passado e resgatemos aquelas escolhas feitas no sentido de que compreendendo aquelas, possamos fazer outras mais adequadas que nos conduzam a uma situação quiçá menos caótica, mais justa, menos miserável para tantos; um espaço que se organize atendendo verdadeiramente, democraticamente, aos reclamos de seus integrantes. Como se pode desejar um espaço urbano mais solidário se não formos capazes de reconhecer com franqueza nossos projetos passados? Como seremos capazes de elaborar planos mais condizentes com nossas necessidades presentes e futuras se não soubermos ouvir nossas expressões mais puras manifestas nas artes, especialmente, neste caso, na literatura de um Olavo Bilac ou de um Lima Barreto?

As crônicas nos mostram um Rio de Janeiro sequioso por mudanças e por civilidade; resta saber se, olhando para as proposições dos autores e para as escolhas socialmente assumidas, queremos continuar a dar vazão e voz à imagem do progresso, com seu ônus e com as adequações sociais a serem feitas posteriormente, ou se devemos levar em conta, como princípio e condição de partida, os custos sociais. Entre a "Regeneração" de Olavo Bilac e a "encenação" de Lima Barreto, vale responder se nossas escolhas, expressas na materialidade espacial, serão, doravante, meras mudanças de forma (estética) ou significarão, de fato, mudanças de conteúdo em prol de uma modernidade socialmente mais justa.

 

Notas



[1] Para uma análise mais detalhada, ver Sevcenko (2003), sobretudo o Capítulo 2: "O exercício intelectual como atitude política: os escritores-cidadãos".

 

[2] A respeito do clima de euforia do final do século XIX para com os conhecimento científicos e aquisições tecnológicas, ver Costa, Ângela Marques da; Schwarcz, Lilia Moritz. 1890-1914: No tempo das certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. (Coleção Virando Séculos).

 

[3] Para uma análise do diálogo entre literatura e técnica, ver Süssekind (1987). Nesse estudo, a autora delineia o confronto entre a literatura do final do século XIX e os anos de 1920 e a paisagem tecno-industrial em formação, observando tal embate em dois ângulos: as representações literárias dos artefatos modernos e dos novos meios de comunicação e locomoção, e como o próprio horizonte técnico contribuiu para a transformação da técnica e da produção literária.

 

[4] Passos, Francisco Pereira. Boletim da Intendência. Rio de Janeiro, jul./set. 1903.

 

[5] Azevedo (2003) destaca que as reformas urbanas operadas no Rio de Janeiro à época pautaram-se em duas concepções urbanísticas diferenciadas: enquanto as intervenções do Governo Federal foram concebidas a partir de uma visão urbanística calcada no mecanicismo e no funcionalismo econômico, o prefeito Pereira Passos adotava uma visão organicista e culturalista.

 

[6] Com efeito, Pereira Passos concebeu escolas para a formação profissionalizante dos filhos dos operários, pleiteou a criação de um imposto comercial destinado ao amparo das classes mais pobres, implantou escolas de ensino básico nas zonas norte e oeste da cidade, construiu uma vila operária na Avenida Salvador de Sá enquanto estratégia para o enfrentamento do problema habitacional do operariado, e transferiu escolas públicas - quase todas concentradas na porção central - para os subúrbios; todas essas medidas tinham o cunho de garantir o sucesso da ilustração do operariado, capaz de partilhar dos benefícios da civilização instalada no centro da cidade e acessível a partir das avenidas.

 

[7] Outra perspectiva de tratamento artístico (teatral) das transformações da mentalidade e da urbe carioca pode ser observada em Süssekind, Flora. As Revistas de Ano e a Invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/ Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.

 

[8] BILAC, Olavo. Crônica. Revista Kosmos, Rio de Janeiro, jan.1904.

 

[9] BILAC, Olavo. Crônica. Revista Kosmos, Rio de Janeiro, mar.1904.

 

[10] BILAC, Olavo. Crônica. Revista Kosmos, Rio de Janeiro, nov.1904.

 

[11] BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 13 ago. 1905.

 

[12] BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 jan. 1905.

 

[13] BARRETO, Afonso Henriques de Lima. O convento. Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, 21 jul. 1911. Essa crônica foi reproduzida posteriormente em BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Bagatelas. São Paulo: Brasiliense, 1956. Col. Obras de Lima Barreto, v.IX.

 

[14] BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas. São Paulo: Brasiliense, 1956. Col. Obras de Lima Barreto, v.VII.

 

 

Bibliografia

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Referencia bibliográfica

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