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Actas del XI Coloquio Internacional de Geocrítica

LA PLANIFICACIÓN TERRITORIAL Y EL URBANISMO DESDE EL DIÁLOGO Y LA PARTICIPACIÓN

Buenos Aires, 2 - 7 de mayo de 2010
Universidad de Buenos Aires

 

 

 

CADEIA CARNE/GRÃOS: NOVAS FRONTEIRAS DO CAPITAL NO CERRADO DA BR-163 MATO-GROSSENSE - BRASIL

 

Júlia Adão Bernardes

Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ

Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMT

Pesquisadora do CNPq

julia.rlk@terra.com.br

 


 

Cadeia carne/grãos: novas fronteiras do capital no cerrado da BR-163 mato-grossense - Brasil (Resumo)

 

Nos últimos anos, os novos fronts da BR-163 mato-grossense vêm sendo constituídos pela cadeia de carnes, envolvendo a revolução genética na produção de frangos, suínos e bovinos, traduzida em tecnologias de ponta que produzem impactos no campo e na cidade, instituindo novas relações. O novo modelo implica em novas técnicas e escala de produção só encontrada no cerrado, mais adequada às atuais necessidades da acumulação. Este trabalho busca analisar os efeitos regionais das estratégias públicas e privadas que envolvem a expansão dessa cadeia no que se refere aos sistemas técnicos de produção, às repercussões da criação de infra-estruturas na integração dos núcleos urbanos e na modificação das relações campo/cidade. Objetiva avaliar de que modo, em que condições e com que efeitos esta região está sendo adaptada às necessidades de inserção do Brasil no processo de mudanças no âmbito da mundialização da economia.

 

Palavras-chave: fronts, cadeia carne/grãos, políticas públicas e privadas.


 

Meat/grain chain: new frontiers of capital in the Cerrado BR-163 highway in Mato Grosso, Brazil (Abstract)

 

In recent years, new fronts have started emerging for the BR-163 highway in Mato Grosso because of meat production, which has taken advantage of huge advances in genetics for the breeding of chickens, pigs and cattle, resulting in cutting-edge technologies with impacts on the countryside and towns, engendering new relationships. This new model implies new techniques and a production scale only encountered in the Cerrado, which is more suited to current accumulation requirements. This work aims to analyze the regional effects of the public and private strategies involving the expansion of this chain, especially technical production systems, the repercussions of the creation of infrastructure on the integration of urban nuclei, and shifts in the relationship between town and country. The objective is to assess how, under what circumstances and to what effect this region is being adapted to meet the needs of Brazil's inclusion in the process of change inherent to the globalization of the economy.

 

Key words: fronts, meat/grain chain, public and private policies.


 

Introdução

 

A expansão da agricultura moderna no cerrado da BR-163 mato-grossense constituía uma significativa fronteira do capital até os anos 2000. Entretanto, nos últimos anos, os novos fronts vêm sendo constituídos pela cadeia de carnes, aproveitando a existência dos grãos em uma fronteira agrícola moderna consolidada, envolvendo a revolução genética na produção de frangos, suínos e bovinos, traduzidos em tecnologias de ponta que produzem impactos no campo e na cidade, instituindo novas relações. A partir do esgotamento do velho, surge um novo modelo, que implica em novas técnicas, nova escala de produção, só encontrada no cerrado, mais adequada às atuais necessidades da acumulação.

 

Neste sentido, a proposta deste trabalho consiste em analisar os efeitos regionais das estratégias públicas e privadas que envolvem a expansão da cadeia carne/grãos no que se refere aos sistemas técnicos de produção e às repercussões da criação de infra-estruturas na integração dos núcleos urbanos e no desenvolvimento da região, enfatizando a influência da nova estrutura econômica no trabalho, nas condições de vida das populações locais, bem como de que forma modifica as relações campo/cidade. Em última instância, o objetivo é avaliar de que modo, em que condições e com que efeitos esta região está sendo adaptada às necessidades de inserção do Brasil no processo de expansão e de mudanças no âmbito da mundialização da economia.

 

A implantação de técnicas especializadas na cadeia produtiva carne/grãos, geradoras de economias de escala, vem promovendo alterações decisivas nas relações agricultura, indústria e comercialização. Assim, a cada novo impulso de modernização das forças produtivas agropecuárias e agroindustriais, os sistemas urbanos vêm se reorganizando, apresentando maior complexidade, o que pode ser detectado através dos novos circuitos espaciais de produção e dos círculos de cooperação que vêm se estabelecendo entre campo e cidade. Ou seja, "quanto mais se difunde a agricultura científica globalizada, mais urbana se torna a sua regulação" (Elias, 2006: 293), implicando no surgimento de novas funções, que são hegemônicas, vinculadas ao atendimento das demandas da agropecuária científica, significando estabelecimento de novas relações entre o campo e a cidade.

 

É possível, portanto, falar, com base no processo de modernização, do estabelecimento de novas relações campo/cidade, da existência de uma relação direta entre reorganização territorial e a coordenação de novos processos, procedimentos e ações que organizam e otimizam o funcionamento de novos setores produtivos e o movimento de seus produtos no âmbito da cadeia carne/grãos. Nesse contexto, a divisão territorial do trabalho constitui uma nova fragmentação do território, necessária ao projeto de modernização dessa nova cadeia produtiva, funcionando como um instrumento de expansão capitalista e condição para a acumulação (Santos, 2003).

 

1.      A implantação de um novo modelo produtivo no cerrado

 

Na história da fronteira deve-se levar em conta não apenas o movimento de continuidade, mas as descontinuidades, é preciso perceber as rupturas e averiguar o que num determinado momento fez mudar o rumo, instituindo um novo front. Em cada época a regularidade precisa ser explicada e o peso das heranças, como também o da novidade, que é a essência da história. É nesse contexto que tentamos explicitar o que levou a uma mudança na realidade econômica do cerrado da BR-163 mato-grossense, como e porquê o rumo dessa fração do cerrado se torceu. Ou seja, como na fronteira de expansão da agricultura moderna se instituiu uma nova realidade econômica, imprimindo substituições nas formas espaciais em função do novo movimento do capital.

 

A partir dos anos 90, a BR-163 mato-grossense vem constituindo uma das principais fronteiras de expansão da agricultura moderna no cerrado, concentrando a maior produção de grãos nos municípios de Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Nova Ubiratã, Diamantino e Tapurah. Entre 2000 e 2008, nesses seis municípios em que a agricultura moderna se encontra consolidada, a evolução da produção de soja apresentou variação em torno de 71,81%, produzindo em 2008 um total de 5.604.179 toneladas de soja, correspondendo a 32,56% da produção do estado. A produção de milho no mesmo período teve um incremento aproximado de 397,71%, totalizando 2.711.159 toneladas em 2008, representando 34,76% da produção de Mato Grosso.

 

Cabe ressaltar que, num contexto em que a economia de mercado se desenvolve segundo suas próprias leis, as oscilações de mercado afetam a organização da produção, à qual o próprio mercado deu vida, ameaçando-a. Trata-se da chamada "crise" que se abateu sobre os produtores e empresas agrícolas ao serem afetados pelas mudanças nos preços do mercado internacional devido à queda no preço das commodities, como também em função do aumento dos preços dos insumos como sementes, fertilizantes e herbicidas e da elevação dos valores das máquinas agrícolas.

 

Em outras palavras: no âmbito do sistema de mercado, enquanto os preços das commodities, especialmente da soja, caíam, os elementos de custo subiam, o que se vincula à forma como se organiza o mercado auto-regulável, como também ao sistema financeiro, com o apoio das classes comerciais, cientes de sua liderança e poder político. Segundo o discurso dos grandes empresários, a crise se traduzia principalmente na falta de diversificação da produção e de agregação de valor à mesma.

 

As tensões que surgiram envolvendo produtores agrícolas/empresas agrícolas e os comercializadores da produção, favoreceram o desenvolvimento de um novo movimento de caráter econômico e político, que iria modelar um novo momento econômico e uma nova organização social, representada pela implantação de cadeias agroindustriais, em sistemas muito organizados, como os de integrados de suínos e aves, aproveitando a grande produção de grãos da região, que passaria a ser industrializada, incluindo a Integração Lavoura Pecuária (ILP), atividade em ascensão no médio-norte da BR-163, favorecida pela crescente demanda mundial por proteína animal. Essas cadeias incorporaram as mais recentes tecnologias, com vistas a atender segmentos de consumo mais exigentes.

 

É importante destacar que as "aparentes" dificuldades da agricultura de exportação não destruíram a autoridade de seus defensores, mas possibilitaram que os mesmos justificassem que as causas das mesmas se encontravam na aplicação incompleta dos princípios do mercado, argumentando que não foram o sistema competitivo e o mercado auto-regulável os responsáveis pela crise, mas a necessidade de difusão mais ampla e aprofundada do sistema de mercado, formulando propostas de industrialização das matérias primas.

 

Como não era possível negar que os negócios eram prejudicados pelas oscilações dos preços das commodities no mercado internacional e pelo aumento dos custos dos insumos, situação agravada pelas dificuldades da logística de transportes, instituições privadas e públicas se empenharam em intervir nessa região, criando condições para a difusão e o aprofundamento do sistema de mercado auto-regulável, procurando remover os obstáculos ao funcionamento do sistema competitivo. Desta forma, ao tempo trazido para os cerrados com a difusão dos fronts agrícolas, um novo tempo se impunha na área concentrada da agricultura moderna da BR-163, o tempo do front da cadeia carne/grãos, com difusão de objetos técnicos mais especializados que possibilitavam ações mais racionais e velozes (Frederico, 2008).

 

Para que os produtores pudessem reduzir os custos, e ser mais competitivos, deveriam dispor na região de novos atores como a Sadia e a Perdigão, sendo essas empresas atraídas pelas possibilidades da escala de produção e pelas vantagens da proximidade das matérias primas, como a soja e o milho, para produzir ração a baixo custo, aproveitando, ainda, o substancial nível de concentração técnica já existente. Tais empresas foram beneficiadas com substanciais vantagens concedidas pelos governos locais, como a oferta de áreas para suas instalações, infra-estrutura e isenção de impostos durante alguns anos.  Além disso, as novas estruturas estariam favorecidas por determinadas condições naturais da região, como a altitude.

 

Em última instância, trata-se do esgotamento do modelo tradicional de produção da cadeia carne/grãos no Sul e Sudeste do país e da implantação de um novo modelo no cerrado do Centro Oeste, com aplicação de novos procedimentos e métodos científicos, incorporando ciência, tecnologia e informação, com vistas ao aumento da produtividade do trabalho e redução dos custos, em escalas de produção nunca antes imagináveis, num contexto de transformação radical das forças produtivas, proporcionando maior nível de rentabilidade ao capital. Não obstante, essa passagem vem sendo gradativa, como revelam os elevados índices de produção de aves e suínos na área tradicional do país.

 

A concentração do rebanho e do abate de frangos em 2008 permanece no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, respondendo esses estados por 75,69% do abate do país, valendo destacar que as dez unidades da federação responsáveis pelo maior número de abates detinham nesse ano aproximadamente 96,15% do total nacional. Entretanto, no que se refere à variação da evolução no período 2006/2008, logo depois do Distrito Federal (45,19%), Mato Grosso assume a liderança (38,37%), seguido por Goiás (31,33%), ao passo que os estados tradicionalmente líderes se situam entre 16 e 26%, dados que confirmam o deslocamento geográfico para o cerrado.

 

Tratando-se do abate de suínos, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais lideravam o ranking em 2008, equivalendo o abate desses quatro estados a 79,97% do país, situando-se a quase totalidade do abate nos oito principais estados produtores. A variação no período 2000/2008 também é reveladora do gradual deslocamento geográfico para o Centro Oeste, cujos estados apresentaram percentuais aproximados situados entre 20 e 35%, enquanto que os da região Sul acusaram crescimento inferior a 16%. Os dados são reveladores de que os projetos em execução no Centro Oeste, particularmente em Mato Grosso, apontam para significativas mudanças no quadro nacional em curto espaço de tempo.

 

Como nos lembra Santos, "com o desenvolvimento das forças produtivas, a desigualdade regional cessa de ser o resultado das aptidões naturais e está se tornando ao mesmo tempo mais profunda e mais especulativa: existe uma maior necessidade de capitais crescentemente volumosos; os recursos sociais também tendem a se concentrar em certos locais onde a produtividade do capital é cada vez mais alta. Tudo está ligado" (Santos, 2003:22).

 

Embora a logística de transportes constitua a grande barreira a ser ultrapassada, a região apresenta outros tipos de logística, em termos do conjunto de competências infra-estruturais como armazéns, ou institucionais, como normas, parcerias público-privadas, agências reguladoras, instituições, além da logística estratégica operacional, que remete ao conhecimento técnico dos prestadores de serviços e operadores logísticos (Castillo, 2002). Todos esses aspectos são fundamentais para conferir maior competitividade à região, a qual já era dotada de sistemas técnicos e normativos voltados para a viabilização da produção, de firmas transnacionais e de áreas especializadas.

 

2.      O poder estruturador das novas políticas públicas e privadas na região

 

Em se tratando do estabelecimento da mais recente fronteira do capital no cerrado da BR-163 mato-grossense, deve-se levar em conta que razões estruturais e conjunturais respondem pelas necessidades do novo padrão de acumulação. Para dar continuidade a esse processo, novas ações passam a ser irradiadas pelo aparelho de Estado, favorecendo as práticas dos novos agentes, oriundos principalmente do Sul e Sudeste.

 

Com o objetivo de incentivar a exportação de produtos com valor agregado, a produção do espaço vem se alicerçando numa solidariedade de interesses, aglutinando os da esfera estatal, de setores nacionais e da grande empresa internacional, permitindo a criação de uma nova base material produtiva.

 

Na atual fase, os governos municipais colocaram em prática a política de estímulos às grandes empresas, através da concessão de áreas para a implantação dos fixos e isenção de impostos; no âmbito do governo estadual foi dada ênfase à melhoria das vias; na instância federal dominaram os subsídios governamentais, cujas formas de financiamento, apesar de altamente modernizadoras também filtram e selecionam, além das obras viárias do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), desencadeando-se, portanto, uma política que visava o aumento da produção e da produtividade. Por outro lado, a compreensão do novo movimento de desenvolvimento das forças produtivas nessa fase envolveu a atuação do Estado no estabelecimento de regras, instrumentos e definição legal de papéis.

 

Assim, o campo se tornou cada vez mais vulnerável ao grande capital, passando o território a ser abrigo para as grandes empresas. Ao estimular políticas para a incorporação dos cerrados à produção de carnes, no contexto da lógica modernizante do mercado e da competitividade internacional, o Estado assumiu a condição de indutor do desenvolvimento capitalista, promovendo ações diretas e indiretas para estimular as novas formas de ocupação do território, procurando torná-lo mais atraente em suas vantagens comparativas.

 

A cadeia carne/grãos já vinha participando da organização do território mato-grossense há alguns anos, seja na produção de aves ou de suínos. Entretanto, a transferência da sua concentração do Sul para esta região vem se intensificando desde 2006. Dados da evolução do efetivo de frangos em Mato Grosso entre 2006 e 2007 mostram que nos 19 municípios produtores a variação se situou em torno de 36,70%, passando a 54,18% entre 2007 e 2008, destacando-se os municípios de Nova Mutum e Lucas do Rio Verde com as mais significativas variações. No que tange ao rebanho suíno, a variação dos 15 municípios principais produtores mato-grossenses ficou em torno de 45,82% entre 2005 e 2008, sob a liderança de Nova Mutum e Lucas do Rio Verde.

 

A Integração Lavoura Pecuária (ILP) também constitui uma atividade em ascensão em Mato Grosso, particularmente no médio-norte da BR-163, favorecida pela crescente demanda mundial por proteína animal. Segundo o produtor Otaviano Pivetta, "nos 33 milhões de hectares de área aberta em Mato Grosso, cerca de 25 milhões são destinados à pecuária e, desse total, aproximadamente 12 milhões têm vocação para a agricultura, isto é, poderiam ser utilizados para a ILP" (Baptista, 2008:38). Essa integração se faz quase sempre com base na utilização do caroço do algodão e do milho na ração animal.

 

Entre os 50 principais confinamentos do país em 2007, encontram-se 7 de Mato Grosso, correspondendo a 19,41% do total, devendo-se destacar o Confinamento Guimarães com 85 mil animais em Lucas do Rio Verde e Sorriso, e a Fazenda Melina, da Vanguarda do Brasil, com 49.698 cabeças em Nova Mutum. Na distribuição geográfica dos 50 principais confinamentos em 2007/08, coube ao estado de Goiás a maior participação (48,58%), vindo em segundo lugar São Paulo (21,85%), seguido de perto por Mato Grosso (19,41%), onde o confinamento vem avançando rapidamente.

 

Os projetos já executados na área concentradora da agricultura moderna na BR-163 a partir de 2007, principalmente em Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso, seja na produção de aves, suínos ou bovinos, confirmam a constituição da maior cadeia carne/grãos do país, e talvez da América Latina. Em Lucas do Rio Verde, a Sadia se destaca como o principal agente, produzindo até final de 2009, um total de 375 mil frangos/dia, sendo a meta atingir 500 mil frangos/dia em 2010, além da expressiva produção de aves e suínos da Perdigão, empresa que se encontra em fase de reestruturação e expansão, apresentando toda essa produção indicadores de produtividade jamais vistos.

 

A nova organização produtiva, induzida pelo mercado, fator determinante das transformações, implicou no desenvolvimento de novas atividades no campo, a exemplo da implantação dos aviários, do criatório de suínos e do confinamento de bovinos. No caso da criação de aves da Sadia foram instaladas 190 granjas, distribuídas num raio de 70 km, abrigando cada uma 4 galpões, totalizando 110 mil cabeças e envolvendo cerca de 1.500 trabalhadores, equivalendo em Mato Grosso um módulo de criação de frangos a sete módulos de Santa Catarina.

 

Tratando-se dos suínos, além da produção da Perdigão e da Sadia, destaca-se a Ideal Porc Suinocultura, do grupo Vanguarda, com a mais alta qualidade genética e padrão de sanidade da América Latina. No caso dos bovinos, o mesmo grupo possuía 60 mil cabeças entre recria (120 a 140 dias) e engorda (90 a 100 dias). Enquanto no Sul do país os pequenos produtores são incorporados ao processo de criação de frangos e suínos na condição de integrados, em Mato Grosso são os médios e grandes produtores os responsáveis por tais atividades, significando abertura de postos de trabalho no campo com certo nível de qualificação.

 

Tais transformações no espaço agrário estão associadas às novas implantações industriais no espaço urbano, a exemplo da fábrica de rações da Sadia, que consome 700 mil toneladas de milho e 200 mil toneladas de farelo para produzir 1 milhão de toneladas de ração/ano, mobilizando toda essa produção 300 carretas diárias somente para o escoamento da produção desta empresa. Para a realização de tais metas, uma esmagadora do Grupo Maggi, com capacidade para 3.000 ton./dia foi construída, associada também à produção de biodiesel, além de obras para armazenamento com capacidade para 132 mil toneladas de grãos. Assim, fábricas de ração, armazéns, abatedouros, frigoríficos e outros tipos de indústria constituem fixos que vêm sendo implantados no espaço urbano.

 

As novas ações são traduzidas em novos tempos, tendo na dimensão técnica uma das condições de eficácia, desencadeando processos que vão criando novas territorialidades, com novas formas conteúdo, associadas a novas funções e estruturas. À medida em que o incremento técnico acumulativo vem intensificando o domínio sobre a natureza, as restrições naturais vão sendo substituídas pelas restrições impostas pelo espaço modificado.

 

Nesse contexto, os fixos multiplicam-se, diversificam-se, renovam-se, os fluxos se intensificam, os lugares são valorizados e especializados e a circulação se acelera. Muda a divisão do trabalho em função da extensão do mercado.

 

A gestão das novas necessidades da produção, da comercialização e da circulação leva à reformulação dos espaços urbanos, sendo introduzidos sofisticados sistemas de comunicação e de informações, que possibilitam a redução do tempo e redefinem a espacialidade dos circuitos de produção, emergindo um espaço organizado em rede, diluindo-se a rigidez das fronteiras entre municípios, possibilitando a fluidez maior mobilidade do capital.

 

Nesse contexto, o desenho espacial da produção, antes constituído em linha ao longo da BR-163, foi alterado, passando a incluir ilhas de produção de grãos com alto valor agregado, levando as novas proporções do capital à instauração de novas formas de relações entre empresas e de interações entre lugares, estabelecendo-se novas hierarquias entre os distintos capitais e territórios.

 

A criação das redes de produção agropecuárias globalizadas explica em parte as novas relações campo/cidade, a organização de sistemas urbanos mais complexos e as inter-relações cada vez mais intensas entre as cidades promovidas pelos sistemas de objetos  que imprimem maior fluidez ao território. As novas relações campo/cidade, associadas à fluidez promovida pela implantação dos novos sistemas de engenharia dos transportes e comunicações, permitem que os circuitos de espaciais de produção e os círculos de cooperação alcancem áreas mais distantes, proporcionando movimentos de reorganização do campo e da cidade.

 

Como o modelo social vigente se sustenta nos pressupostos do desenvolvimento permanente, baseado na produção/comercialização contínua sob os impulsos da competição, que estimula a criação de novos produtos, de novas formas de produzir e consumir, com base na implantação de novas tecnologias no campo e na cidade, num processo de realimentação permanente, a tecnologia acaba funcionando como fator condicionante das novas relações campo/cidade.

 

É possível, portanto, falar, com base no processo de modernização, do estabelecimento de novas relações campo/cidade, da existência de uma relação direta entre reorganização territorial e a coordenação de novos processos, procedimentos e ações que organizam e otimizam o funcionamento de novos setores produtivos e o movimento de seus produtos no âmbito da cadeia carne/grãos.

 

Por outro lado, a compreensão das políticas públicas e privadas desenvolvidas e de como vêm contribuindo na emergência de novas relações sociais, como também os interesses envolvidos, explicam o processo de intensificação das interações entre as cidades que coordenam os processos agrícolas.

 

No caso da cadeia carne/grãos da BR-163, os vínculos mais intensos vêm sendo estabelecidos entre as cidades de Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso, podendo ser interpretado o menor dinamismo das relações destas com as cidades de Diamantino, Tapurah e Nova Ubiratã, como adaptação progressiva às necessidades e interesses do capital hegemônico, de maneira diferenciada. Dessa forma, esse conjunto constitui uma rede urbana seletiva e hierarquizada de uma região especializada na produção de grãos e carnes, com diferentes níveis de interação entre as referidas cidades, as quais apresentam graus diferenciados de capacidade de integração na teia regional.

 

Tais diferenciações estão associadas ao crescimento econômico desta região especializada, que se revela cada vez mais desigual, gerando desequilíbrios e exclusão, o que pode ser explicado em parte pela manutenção de determinadas estruturas econômicas, sociais e políticas menos adequadas às atuais formas de acumulação.

 

3.      Consolidação dos fatores estruturantes da sociedade

 

No que se refere aos fatores estruturantes das formas de produção do território e de organização da sociedade, trabalho, terra e capital constituíram variáveis fundamentais: o capital em função dos vultosos investimentos, a terra que devia estar disponível para economias de escala, e o trabalho, enquanto cerne da extração da mais valia. Tais fatores estavam disponíveis para a venda no mercado na área concentrada de grãos da BR-163, e foram fundamentais enquanto "princípio organizador da sociedade" na fase da implantação da cadeia carne/grãos.

 

Nesse contexto, é possível afirmar que a história do novo tempo do capital, envolvendo a implantação de novas atividades no cerrado, com o objetivo de ampliar as vendas de mercadorias, mas não exclusivamente, já que envolve recursos de poder, está associada ao movimento de concentração da terra, de fusões, de centralização do capital, de concentração do capital e poder, que inclui o poder político, implicando na exclusão de pequenos e médios produtores.

 

Deve-se considerar que, no processo de cooperação/competição do encadeamento produtivo, o nível de interdependência entre os atores faz com que as estratégias que desembocam em concentração e centralização do capital provoquem efeitos nos demais atores da cadeia e, nesse sentido, a busca do poder é significativa, na medida em que favorece a dominação no encadeamento (Paulillo, 2000).

 

Em relação ao trabalho, foram criados mecanismos para sua regulação que escapavam ao funcionamento da lei de oferta e procura, já que as novas atividades que se abriam e a escala em que funcionavam exigiam a presença de fortes contingentes de mão de obra, os quais, contraditoriamente, não podiam permanecer no local em função da incompatibilidade salário/moradia/custo de vida. Oferecendo baixos salários, a forma de conseguir mão de obra era a concessão de vantagens, como moradia com financiamento a longo prazo para alguns, ou contratação de alguns membros da família, significando agravamento das relações de dependência.

 

Como assinala Polanyi (2000:292), "embora seja da natureza das coisas que os diferenciais salariais possam (e devam) continuar a desempenhar um papel essencial no sistema econômico, outras motivações, além daquelas diretamente envolvidas nos rendimentos monetários, podem compensar em muito o aspecto financeiro do trabalho".

 

Em suma, para que a produção de carnes assumisse proporções inacreditáveis, foi essencial o estabelecimento de medidas e de uma rede de integração de políticas que alimentassem processos de concentração e centralização, levando a mudanças na geografia dos grãos, a fenômenos de inauguração de novos espaços produtivos, vinculados a novos potenciais, assim como a fenômenos de eliminação de espaços com reduzida capacidade de diversificação.

 

Nesse sentido, a organização do capital nas novas cadeias produtivas implicou em substanciais níveis de investimento, centralizando-se a economia em menor número de empresas, levando ao aumento do monopólio, promovendo as novas proporções do capital a instauração de novas formas de relações entre empresas, lugares, entre o rural e o urbano, estabelecendo-se novas hierarquias entre os distintos capitais e os territórios. As oportunidades de ação, os interesses envolvidos e os recursos de poder, componentes fundamentais dos mecanismos de governança, possibilitam compreender o funcionamento das cadeias produtivas enquanto redes de poder (Paulillo, 2000).

 

Diagnosticar as utilidades técnicas e perceber quem pode dispor de quê para ter uma produção racionalmente orientada, como fontes de energia, de água, saberes, instalações, infra-estruturas, etc, significa entender a natureza desse poder que permite que a economia se realize. Significa instituir o futuro, que é uma característica da modernidade. Assim, as grandes empresas planejam, pensando no futuro com as condições do presente. Constroem projetos e disputam o futuro que desejam, que pode ser altamente competitivo, tecnificado. Logo, quem tem projeto decide, estabelece as regras e implementa, pois, sem projeto, não se disputa a hegemonia (Ribeiro, 2002).

 

Estamos falando, portanto, das estratégias que contemplam grandes ações, as quais devem ser sincronizadas, sendo as ordens e as regras enquadradas em tempos pré-definidos, e estas ordens, e estas regras se relacionam com mecanismos de reprodução de poder.

 

4.      Repercussões da criação de infra-estruturas nos núcleos urbanos e no desenvolvimento regional

 

O uso do espaço requer previamente sua apropriação e domínio sistemático, domínio sobre a natureza e os homens, e cada modelo de apropriação reflete um modo de produção que traz implícito um nível de relações sociais de produção. Dessa forma, tornar um espaço funcional passa pelas adequações à sua nova função, o que constituirá uma nova forma de produção desse espaço (Sánchez, 1991), significando que o modo de produção deverá moldá-lo conforme seus interesses.

 

As inovações materializadas na forma de técnicas, que se traduzem no aumento da produtividade, produzem novas necessidades de trabalho vivo. Segundo a Sadia, seus investimentos deveriam gerar mais de 7.000 empregos diretos. Entretanto, apesar das necessidades de maior quantidade de mão de obra com certo nível de qualificação, os salários continuaram baixos, não ultrapassando em 2008, em média 550 reais para um operador, sendo a oferta de trabalho superior à procura em função do elevado custo de vida na região e do preço do solo urbano.

 

Em suma, os novos impulsos de modernização das forças produtivas agroindustriais, que se expressam através dos novos circuitos espaciais de produção e dos círculos de cooperação que se estabelecem entre campo e cidade, suscitam reorganização dos sistemas urbanos. Não obstante, as práticas econômicas modificaram o espaço urbano na condição de valor de troca, gerando uma dinâmica de mercado traduzida no processo de intensificação da especulação imobiliária e da elevação do custo de vida em geral, não havendo adequação do atendimento das novas demandas, em termos da produção suficiente de moradias e do meio ambiente circundante às necessidades sociais, principalmente no que diz respeito à rede de água, saneamento básico e serviços de educação, saúde e transporte.

 

A problemática ambiental é outro aspecto que merece destaque. O modelo técnico produtivo da nova cadeia carne/grãos, que consome maiores volumes de água e energia, de matéria-prima, de transportes e de mão de obra,  produz também grandes volumes de dejetos, que implicarão em substanciais repercussões desestruturadoras do meio ambiente. Segundo Ruy Moreira (2006:145), se por um lado aumenta a capacidade de consumir mais natureza, por outro não se reinventa a forma de reconstruí-la na mesma medida. Como não se cria uma nova cultura técnico-científica da noite para o dia, o tempo virou um problema estratégico. É preciso tempo para se criar uma nova base material, ou seja, técnica e natureza compatíveis em seus respectivos modelos. Tal percepção indica que a problemática espacial deve ser enfocada como uma totalidade concreta que pode ser percebida em suas múltiplas dimensões.

 

Na sociedade capitalista contemporânea, que é uma sociedade estratificada, os interesses dos grupos sociais hegemônicos instituem formas de produção fundamentadas no progresso científico e tecnológico. Nesse sentido, o sistema produtivo, a tecnologia e as adaptações são orientadas para responder aos fins da acumulação, implicando em mudanças na divisão territorial do trabalho no setor, a nível nacional, bem como nas formas  de inserção na economia mundial. Nesse contexto, a divisão territorial do trabalho constitui uma nova fragmentação do território, não sendo resultado da modernização, mas por ela projetada (Ribeiro, 2002), já que é necessária ao projeto de modernização.

 

Considerações finais

 

No processo de instituição de novos fronts, em que a ampliação da racionalidade econômica se exterioriza no uso de técnicas cada vez mais originais e fecundas na elaboração de bens e produtos em maior quantidade e qualidade, emerge a contradição com a natureza, que se exprime em contradições sociais, consistindo no desacordo social onde o modo de vida de alguns prejudica a existência de muitos (Pinto, 2005).

 

O novo front que tentamos caracterizar neste trabalho não se resume a limites geográficos, a expansões territoriais, não é apenas "o território do novo, da inovação" (Martins, 2009), da aceleração do tempo, da fluidez do território. Martins nos adverte para a necessidade de incorporação do conflito na apreensão do significado mais profundo da fronteira.

 

Na fronteira fundante da cadeia carne/grãos, o conflito se revela particularmente nos problemas sociais e ambientais, nas formas de controle do trabalho e do território e, dessa forma, vai se construindo mais um pilar da estrutura da sociedade brasileira (Martins, 2009). O nível de extração de mais-valia do trabalho e as formas de controle sobre os trabalhadores indicam que "a reprodução ampliada do capital é assegurada por um desfrute da força de trabalho além da possibilidade de reprodução desta" (Martins, 2009: 87), através da incorporação de mecanismos de acumulação primitiva.

 

Nessa fronteira carne/grãos, onde se instala um outro patamar de modernização, uma certa burguesia toma iniciativa, concentrando e centralizando a terra, o capital e o poder político. É no território, uma das dimensões do espaço produzido, que essas iniciativas se concretizam, transformando-se no cenário de contradições e conflitos, que constitui a condição necessária das mudanças sociais, convertendo-se num instrumento histórico e dialético da materialização da vida.

 

É nesse sentido que Santos assinala que "é o uso do território, e não o território em si mesmo, que faz dele objeto de análise social" (Santos, 1994:15). O território é a porção de espaço construído na qual as relações de uma sociedade atingem seu maior nível de concretude, integrando as formas, os objetos, os valores e as ações na totalidade dos acontecimentos simultâneos.

 

No que se refere às políticas públicas territoriais, considera-se fundamental, no que concerne à gestão ambiental da cadeia produtiva e à organização do trabalho, propor a criação de uma comissão permanente, envolvendo leigos, técnicos, acadêmicos e outros membros da sociedade civil que atuam na cadeia do ciclo de proteção da vida, com o objetivo de realizar estudos, elaborar programas e ações relacionados à convivência entre os homens e dos homens com a natureza, voltados para o controle das formas de trabalho na região e das repercussões das novas atividades no meio ambiente.

 

 

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Referencia bibliográfica

 

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