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Actas del XI Coloquio Internacional de Geocrítica

LA PLANIFICACIÓN TERRITORIAL Y EL URBANISMO DESDE EL DIÁLOGO Y LA PARTICIPACIÓN

Buenos Aires, 2 - 7 de mayo de 2010
Universidad de Buenos Aires

 

 

(RE) SIGNIFICAÇÕES DE PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO, TURISTIFICAÇÃO E PAISAGEM NA ÁREA CENTRAL DE FLORIANÓPOLIS

 

Cleide Roselei Blatt,

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFSC.

 

Elaine Dorighelo Tomás

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFSC.

 

Ewerton Vieira Machado

Professor do Programa de Pós Graduação em Geografia da UFSC.

 


 

(Re) significações de processos de urbanização, turistificação e paisagem na área central de Florianópolis (Resumo)

 

Os aspectos da área central da cidade Florianópolis sob o contexto da urbanização recente modificaram-se nas últimas décadas com ações de turistificação através de instâncias públicas e privadas. Busca-se refletir sobre ações de turistificação em que estão sendo produzidas para além das sazonalidades, uma vez que àquela região central esteve "relegada" ao um segundo plano, em relação aos balneários e, hoje, esta área central articula processos de consumos via atividade turística através das "guerras dos lugares". Entre os resultados relevantes estão deficiências associadas à falta de sinalização turística e pouco aproveitamento das atividades tradicionais locais; carência de restaurantes típicos; tipologia de verticalização de hotéis com áreas de lazer insuficiente e geralmente destinadas aos negócios de eventos. Dentre as potencialidades estão à inserção de edificações artesanais; a preparação de locais para a comercialização de alimentos típico-regionais, assim como o desenvolvimento da capacidade de recreação e lazer, e possivelmente a captação de energia eólica e o transporte marítimo.

 

Palavras chave: Turistificação urbana. Área central. Consumo do lugar


 

Meaning of urbanization processes, tourism and landscape of the Florianopolis central place (Abstract)

 

During the last years device recent urbanization some aspects of central place of the Florianopolis city changed with actions by public and private institutes that promoting the tourism. The aim this study is to reflect about actions of tourism produced beyond of the seasonality, considering that central place used to in second plane than the beaches places. Today this central place organize processes of consume through tourism activities and war of spaces. Between of important outcomes are problems relation with the lack of tourism orientation and little use of traditional activities, necessity more number of typical restaurants, hotels frequently with business room and without leisure space. On the other hand, between the positive points are the handcrafted buildings, places prepared to sell typical foods, creation of places to leisure, and probability the development of wind energy and maritime transport.

 

Key words: Tourism urban, central place, consume of place.


 

Introdução

 

As transformações ocorridas na área central de Florianópolis em relação a sua trajetória de organização espacial são visíveis, nas últimas décadas, reflexo do crescimento da própria cidade. [1] E, esse crescimento em sua maioria, se deve a intensificação de processos de urbanização e a turistificação. A atividade turística, por sua vez, teve sua gênese relacionada principalmente aos atrativos naturais da ilha de Santa Catarina, condições estas intrínsecas a seu sítio.

 

Entretanto, esta atividade apenas tomou impulso a partir do momento em que o processo de urbanização se intensificou, principalmente com a ampliação do sistema viário às praias mais distantes da até então "provinciana" Florianópolis, isso por volta da década de 1960. Além da crescente facilidade de acesso ao interior da Ilha, outros fatores contribuíram, mais ou menos concomitantemente, para o aumento demográfico e, conseqüentemente, para o desenvolvimento do turismo, como os incentivos imobiliários, o aterro da baía sul e baía norte, a criação da Universidade Federal de Santa Catarina, as migrações provindas do sul e do sudeste, dentre outros. Destarte, o incremento da atividade turística insere Florianópolis através da Ilha de Santa Catarina, hoje no rol dos destinos mais procurados do Brasil e boa parte da América da Sul.

 

Dessa forma, entendendo o turismo como uma atividade importante para a economia local e observando a expansão acentuada de investimentos públicos e privados nessa área, a questão que se apresenta como um desafio é : como associar uma atividade turística com os processos de (re)significações da identidade de Florianópolis? Em particular esse desafio é maior na área central de Florianópolis despertando vários questionamentos: Qual é o papel dessa área neste contexto? Quais são as principais ações de turistificação, das esferas públicas e privadas, que estão gradativamente inserindo a área central em busca da não sazonalidade?

 

Para entender melhor essa (re)significação nos processos de urbanização, turistificação e paisagem, este estudo concentrou-se na área central[2] e insular de Florianópolis, delimitada pelo prolongamento da Avenida Mauro Ramos até as Baías Norte e Sul, englobando aquilo que se convencionou chamar de entorno próximo do núcleo histórico e a partir do qual vem ocorrendo o crescimento da cidade. Optou-se pela reflexão dessa área devido à principal atividade turística de Florianópolis estar relacionada aos seus atributos físico-naturais, localizados em balneários distantes, e a área central ficar relegada a um segundo plano dentro desse processo de consumo do lugar.

 

Antes de fazer uma reflexão baseada apenas em fatores econômicos, o ensaio em questão busca uma interação com os fatores sociais e culturais, analisando o turismo não apenas do ponto de vista mercadológico, como um "fetiche", mas inserido-o dentro do cotidiano, do dia-a-dia da população, já que o que é bom para o turista, também deve ser bom ao morador.

 

1          O Centro: Recortando contextos teóricos, aproximando historicamente de contextos empíricos

 

1.1    Espaço, paisagem, lugar

 

O reconhecimento da área central de Florianópolis envolve aspectos da dinâmica urbana adotada e de suas (re)significações, bem como a agregação de novas funcionalidades frente às atividades turísticas. Sendo assim, é importante, para este ensaio destacar fatores, elementos, mudanças e continuidades que vem produzindo dimensões espaciais da área central de Florianópolis.

 

Para este estudo considera-se então, necessário apreender o conceito de espaço, de paisagem e de lugar para auxiliar em uma melhor compreensão desses elementos no processo de re-funcionalização do lugar. Segundo a ótica de Santos (1999) o espaço deve ser considerado como uma totalidade, podendo ser fragmentado e depois reconstituído pelo processo de pensamento, formando novamente o todo. Essa fragmentação não é aleatória, mas é representada por elementos que só podem ser entendidos à luz da história e do presente, pois no movimento histórico, cada elemento muda seu papel e sua posição no sistema temporal e no sistema espacial e; a cada momento, o valor de cada qual deve ser tomado de sua relação com os demais elementos e com o todo (Beltrão, 1989).

 

Ainda, segundo aquele autor, uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade. A paisagem seria, então, o resultado da acumulação destes diferentes tempos. "Para cada lugar, cada porção do espaço, esta acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo, na mesma velocidade ou na mesma direção" (Santos, 1978, p.8).

 

Deste entendimento enunciado por Santos, reconhece-se que a paisagem da área central da cidade de Florianópolis é a que guarda maior acumulação de tempos. É um lugar muito atingido pela ação do homem, mas que ainda expressa no seu ambiente construído à história de um povo, por suas "rugosidades".

 

A velocidade desta acumulação de mudanças tem aumentado com o tempo, principalmente com as modernizações ocorridas a partir dos anos sessenta. Daquela década, em diante a transformação na área central acelerou-se. A esse respeito Vaz (1991, p. 33) menciona que:

 

A paisagem urbana mostra o enorme crescimento da cidade, com a extensão periférica de forma tentacular e o adensamento do centro e sua expansão, fator marcados pela estruturação de uma nova forma urbana em que se destaca o sistema de circulação e transportes rodoviários. A crescente classe média multiplicou as grandes áreas loteadas dos novos bairros residenciais e os edifícios de apartamentos que margearam novas avenidas. Ela foi assistida por numerosa e periférica camada social de baixa renda que sustentou o setor de comércio e serviços com mão-de-obra barata e a construção civil.

 

Outro aspecto que merece ser evidenciado na presente reflexão, se refere ao conceito de lugar. O lugar pode ter várias dimensões de escala. Para Santos (1985), o mundo se faz no lugar. E o mundo funciona através das relações que nele se estabelecem. Na área central estamos assistindo, permanentemente, uma re-dinamização do lugar, ocorrendo uma revalorização desse território. Essa revitalização se dá em conseqüência de algumas políticas setoriais e muitas vezes estas ações acontecem por conta de iniciativas privadas, como por exemplo, algumas associações de classe (Fecomércio e ACIF entre outros) que as implementam. Algumas melhorias públicas são feitas para a cidade não visando diretamente o turismo, no entanto, acabam sendo apropriadas pelas atividades deste setor.

 

Muitas vezes, o centro pode ser visto como um aglomerado que inclui a área histórica e os arrabaldes antigos, por exemplo, "os bairros elegantes do século XIX, as expansões ordenadas da primeira metade do século XX, alguns setores que foram objeto de ações de renovação, uma parte dos bairros novos que substituíram antigas zonas industriais ou portuárias..." (Parenai, 2006, p. 21).

 

Podemos assim, colocar que, as principais características da área central são: a forte concentração de equipamentos públicos e de instituições públicas também; a marcante presença de atividades comerciais, e uma alta densidade de edificações onde coexistem edifícios antigos com outros novos e uma grande variedade e diversidade de usos. (Parenai, 2006).

 

De um modo geral vive-se, atualmente, um momento inédito do desenvolvimento da história da humanidade, onde a maior parte da população do planeta se encontra em "áreas urbanizadas" e não mais em "áreas ruralizadas". Isto é conseqüência de uma aceleração sem precedentes do crescimento urbano-industrial verificado ao longo do século XX. Somente pequeníssima parcela dessa população urbana se encontra nas áreas centrais. As transformações do modo de vida e a constante introdução de novas modalidades de consumo vêm provocando grande expansão da superfície urbanizada. Ao mesmo tempo em que o centro perde habitantes, passa a ganhar novas funções através da revalorização dos antigos locais, muitas vezes com vistas a atender atividades ligadas ao turismo. Outras vezes pode ganhar novas funções também através da recuperação da memória cultural do(s) lugar/ares.

 

Segundo Parenai (2006) a modificação da noção de centro pode ser interpretada como um ajuste histórico: o que ontem era novo, hoje se tornou antigo. Porém a dupla explosão - da forma de conjunto e do tecido urbano - no processo de urbanização das últimas décadas acrescenta rupturas morfológicas quase irredutíveis.

 

A inversão da relação centro/periferia revela fenômenos contraditórios. Por um lado tem-se a expansão do centro, por outro a sua proporção na área urbanizada diminui. O centro histórico continua a desempenhar um importante papel e em muitos casos está se revalorizando, mesmo quando sofre a concorrência de outros fragmentos da cidade.

 

1.2    O turismo em áreas centrais urbanas: a inserção do patrimônio natural, cultural e paisagístico

 

Segundo Cruz (2001) o turismo é, em essência, uma prática social. Prática social, esta agregada ao mercado, que tem no espaço seu principal objeto de consumo e, em decorrência dessa característica intrínseca, requer a adaptação dos territórios e suas demandas materiais e imateriais.

 

O processo de ordenamento do território materializa-se no espaço e no tempo através da evolução da paisagem, refletindo incidências, no campo estético e cultural, de modelos subjacentes à organização desses territórios, sendo, simultaneamente, o resultado e o somatório das intervenções, individuais e coletivas, planejadas ou espontâneas. (Saraiva, 1999).

 

As estratégias de intervenção e produção do espaço urbano têm uma das expressões deste processo na (re)funcionalização, sobretudo de patrimônios edificados dos centros históricos das cidades. As novas políticas estratégicas de (re)funcionalização das áreas centrais, antes abandonadas à deterioração, hoje são disputadas principalmente pelas atividades ditas nobres da "indústria cultural". A revalorização das paisagens constituídas por elementos históricos, como o patrimônio arquitetônico, tem atribuído às localidades urbanas contemporâneas novos sentidos no campo do consumo. (Luchiari, 2005).

 

Assim, o patrimônio histórico arquitetônico segundo Cruz (2001) interessa ao turismo urbano, por representar oportunidades de diversificação da oferta do lugar. Não por acaso, as estratégias voltadas à dinamização do turismo, apropriam-se desse patrimônio promovendo sua conservação/preservação e inserindo-o como possibilidade de produto oferecido ao turista e, muitas vezes, até mudando seu significado original.

 

É o que Santos (1999) denominou de "rugosidade" ao se referir as formas passadas do espaço construído, tratando-se dos resíduos que podem ser evidenciados através da "supressão, acumulação e superposição dos tempos", apresentando-se de forma isolada ou formando um conjunto arquitetônico. Essas formas pretéritas revelam-se no espaço através das paisagens.

Para Peet (1997) apud Luchiari (2005), essas manifestações revelam identidade de como o capitalismo estaria vivendo uma "fase semiótica", onde o poder do signo toma o lugar do objeto. Assim, não consumimos apenas os objetos em si, mas os signos e seus significados conjunturais, ou seja, simulacros da globalização.

 

A valorização da área central de Florianópolis e a sua incorporação ao negócio do turismo não é um fato isolado. Esse mesmo processo ocorreu na Rua das Flores em e Curitiba; no casario em São Luis do Maranhão; na região do Pelourinho em Salvador; na região portuária do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades, brasileiras ou estrangeiras. Cada lugar encontra, a sua maneira, estratégias de fazer sua revalorização da área central e da cidade, e incorporá-las aos novos contextos socioambientais de usos e comercializações espaciais. E em Florianópolis a realidade não foi diferente.

 

2          Dinâmicas urbanas da área central de Florianópolis

 

A revalorização da área central de Florianópolis passa, indubitavelmente, pelo que Lins (2000, p.62) chamou de "fragilidades de governança":

 

Governança [...] é expressão que remete ao conjunto de atores sociais e arranjos institucionais de um território, às modalidades de comportamento destes e às regras que coordenam as suas relações. Em outras palavras, é termo que alude à regulação local.

 

É dentro desta lógica de governança que o Estado exerce parte do seu papel de regulador social, através das práticas de planejamento urbano, expressas pelo plano diretor. É inegável a importância do Estado nessa execução, mas ele próprio possui um discurso antagônico, ora agindo em favor de toda coletividade, ora em favor da classe dominante. Evidencia-se, assim, uma falta de compatibilidade e coerência entre as políticas econômica e espacial, visto que "nenhuma política econômica [...] obterá sucesso sem o estabelecimento paralelo de uma política espacial. As duas políticas são indissociáveis" (Santos, 1991, p. 57-58).

 

Este antagonismo envolve uma das mais expressivas fragilidades de governança, relacionada à área central de Florianópolis, onde processos de adensamento/ verticalização, oriundos da política econômica "desenvolvimentista" das décadas de 1950, 1960 e 1970, revelaram as limites e suas conseqüências nos padrões do urbanismo local.

 

Já em 1955, quando da aprovação do primeiro Plano Diretor do município, implantaram-se zoneamentos para as funções urbanas "modernizantes", mantendo as atividades administrativas, comerciais e residenciais tradicionais da área central (Dias, 2005). Do mesmo modo, o Plano de Desenvolvimento Integrado da Região da Grande Florianópolis (1969), previa "uma urbanização de alta densidade e gabarito elevado no Aterro da Baía Sul" (F. Santos, 2005, p.62), atual Parque Metropolitano Francisco Dias Velho, evidenciando um estímulo ao adensamento de área construída na área central da cidade.

 

Mesmo com alterações em lei, no ano de 1976 os ajustes feitos no Plano Diretor de Florianópolis continuavam permitindo o adensamento habitacional da área central, possibilitando a implantação de edificações com até 12 pavimentos (IPUF, 2004). Apesar das modernizações entre as décadas de 1960 e 1970, as legislações de ocupação e uso do solo urbano empreenderam sucessivas alterações e adaptações em seus conteúdos, sem que as respectivas diretrizes de ordenamento espacial, notadamente relacionadas ao ramo da construção civil, fossem expressas na paisagem.  Isto gerou continuidades de padrões de crescimentos sem planejamento adequado, que pode ser confirmado entre as mudanças de ações de política pública, conforme aparece no Plano Diretor do Distrito Sede do Município de Florianópolis, de 1997. Por conseqüência, algumas ações deste instrumento legal:

 

compreendia a descentralização das atividades do Centro Histórico para os Centros de Bairros, facilitando a acessibilidade dos moradores, reduzindo a demanda por transporte coletivo e diminuindo o congestionamento da área central, a fim de melhorar os níveis de funcionalidade e salubridade urbana da área mais adensada do plano diretor. (IPUF, 2004).

 

Nas legislações urbanas acima esboçadas, é possível apontar alguns aspectos da ação do Estado, que pode reforçar em suas políticas o caráter necessário do planejamento urbano. Em dado momento (1976), visava-se à concentração da infra-estrutura e o adensamento da população no entorno do centro histórico. Já em outro momento (1997), devido à saturação do núcleo urbano central, buscava-se desconcentrar a expansão urbana e a prestação de serviços da área desse mesmo núcleo. Portanto, entre 1976 e 1997, em apenas 21 anos, o adensamento foi inversamente proporcional ao pouco tempo de ação dessas políticas públicas. Desse modo, pode-se questionar o modelo de desenvolvimento adotado, que não visava uma função social de planejamento e ordenação do solo, mas que apenas atendia a interesses econômicos e políticos.

 

Outro dado relacionado à perspectiva de governança e que deve ser mencionado neste ensaio está relacionado à questão da balneabilidade de locais adjacentes à área central. Apesar de atualmente essa região central da capital não possuir "locais balneáveis", a emissão de efluentes domésticos sem o devido tratamento compromete a qualidade de vida da população e de qualquer perspectiva da atividade turística, vinculada aos aspectos naturais.

 

Ainda no que se refere à esfera de governança, faz-se necessário atentar para o que se convencionou reconhecer de "patrimônio paisagístico-cultural" na Ilha de Santa Catarina. Mesmo trazendo modernizações ditas necessárias à limitada área urbanizável no centro de Florianópolis, como a implantação de infra-estrutura através do aterro da Baía Sul, este afastou a convivência homem-mar, que antes acontecia nas imediações do Largo da Matriz[3], hoje Praça XV de Novembro, outrora local principal de onde se iniciou o povoamento da ilha que desencadearam fluxos de crescimento da cidade.

 

Ao contrário do que se propunha com o aterro da Baía Sul e com a criação do Parque Metropolitano Dias Velho[4], sucessivas ampliações do sistema viário e áreas de estacionamentos foram implantadas sobre o parque, priorizando a circulação de automóveis em detrimento de atividades de lazer e convivência. Mais tarde, entre as décadas de 1970 e 1980, foi concluído o Aterro da Baía Norte. Esta modernização, segundo Sugai (1994), foi fator de expansão e da densificação dos bairros situados no entorno da área central e na acessibilidade em direção ao norte da ilha, além de resultar na criação de novas frentes públicas de propriedades localizadas à beira da Praia de Fora. Estas propriedades, por sua vez, proporcionaram novos tipos de investimentos de capital imobiliário, notadamente relacionados ao processo de verticalização (edifícios residenciais multifamiliares), induzindo um padrão de desenvolvimento para as áreas do chamado centro expandido de Florianópolis.

 

Além do "patrimônio paisagístico-cultural" que são os aterros da Baía Norte e Sul, é importante mencionar a respeito da Ponte Hercílio Luz e do seu entorno. Imagem símbolo de Florianópolis, este monumento constitui-se entre as maiores pontes pênseis do mundo, desde 1926 quando finalizada. Até meados da década de 1970, era a única ligação rodoviária entre a ilha e o continente[5] (Peluso Júnior, 1991). Junto à parte insular da ponte, encontra-se uma área que passa por processos de revitalização onde se localiza o Parque da Luz[6]. Como atrativos turísticos, estes elementos ainda estão subaproveitados, carecendo melhorias de infra-estrutura para ampliar seus aproveitamentos enquanto meio de lazer e de entretenimento.

 

Outro fator importante na dinâmica urbana da área central foi o crescimento proporcionado pelas ampliações do sistema viário na Baía Norte e Sul, pela criação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1960, e pela transferência da ELETROSUL do Rio de Janeiro para Santa Catarina na década de 1970. Dessa forma, a área central passou a não ser mais a concentradora de atividades como era no passado, conforme descreve F. Santos (2005, p.59):

 

"(...) as modificações provocadas na cidade devido à intervenção estatal geraram uma demanda por trabalhadores qualificados, que se refletiu num aumento populacional significativo em relação ao contingente de habitantes naturais. Essa situação fez surgir um novo mercado consumidor, que fomentou o desenvolvimento da construção civil, ao mesmo tempo em que a ampliação do sistema rodoviário e a melhoria das infra-estruturas urbanas fomentaram o desenvolvimento turístico a partir de 1970."

 

Nesse contexto, o crescimento e adensamento acelerados fizeram com que a paisagem urbana da área central adquirisse alterações substanciais em curto espaço de tempo. Assim, mesmo Florianópolis possuindo diretrizes urbanas desde meados da década de 1950, é somente em 1980 que se iniciou um inventário de edificações históricas, culminando com a criação, em 1984, de um órgão municipal responsável por questões inerentes a patrimônio histórico, estético e arquitetônico.

 

Esta reação tardia do Estado trouxe conseqüências para os avanços em políticas de preservação do patrimônio construído. Em um primeiro momento, com o adensamento/ verticalização no entorno do núcleo histórico a partir da década de 1970, privilegiava-se a preservação de edifícios monumentais, de forma isolada e pontual[7]. Posteriormente, no ano de 1986, as principais edificações da área central foram oficialmente tombadas sob a forma de Conjuntos Arquitetônicos e Áreas de Proteção Cultural. Este fato evidencia tipos de superposição ao Plano Diretor com relação às áreas tombadas, não atendendo às orientações de preservação (Dias, 2005). Vale ressaltar que o tombamento em si não é garantia de restauração e manutenção da edificação isolada ou do conjunto histórico. Várias ações oficiais continuam sendo restritas, fruto das deficiências oriundas da fragilidade de governança e/ou de orientação de Planejamento Urbano. Problemas relacionados à escassez de recursos financeiros, ações demolitórias, pressão dos agentes imobiliários, constantes mudanças de zoneamento do solo urbano, alteração de gabaritos, imprecisão dos mecanismos legais de controle e proteção, etc., fomentam a omissão principalmente através dos agentes oficiais. Assim, muitas edificações históricas foram demolidas ou tiveram suas funções e entorno descaracterizados, como nas áreas de aterro das Baías Norte e Sul, na outrora área portuária de Florianópolis.

 

No entanto, apesar dos "maus exemplos" apontados, os bons devem ser evidenciados, como a (re)funcionalização da antiga Casa da Alfândega. Situada nas proximidades do antigo porto e da atual Praça XV de Novembro, aquela edificação foi erguida em 1875 e teve a função original descaracterizada com o encerramento das atividades portuárias em 1964. Em 1975 o prédio foi tombado em âmbito federal e desde a restauração realizada entre 1977 e 1979, tem sido objeto de conservação e (re)funcionalização constantes, abrigando atualmente galeria de artes, quiosques de artesanato, bar e posto de informação turística, além de um coreto na área externa para eventos culturais. E, na parte superior, encontra-se o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/ SC).

 

Por outro lado, vale citar ainda, a existência parceria público-privada no processo de conservação da memória florianopolitana, desde 1993, através do chamado projeto Renovar[8] (Adams e Araújo, 2003). Ações deste tipo visam, antes de atender ao turista, beneficiar a própria população, resgatando aspectos culturais expressos na paisagem que vêm em constante processo de deterioração pela ação do tempo.

 

Assim, como as modernizações inerentes à evolução urbana de Florianópolis, a até então modesta rede hoteleira local viu crescer demandas em caráter inversamente proporcional à oferta e aos investimentos nesse setor. Esta rede hoteleira da capital na década de 1980 concentrava-se predominantemente na área central da cidade[9], atendendo a função administrativa de prestação de serviços de aparelhos do Estado, e absorvendo quase toda a demanda turística de altas temporadas. Conforme F. Santos (2005, p.143), somente:

 

A partir de 1990, ocorre o aumento da oferta de hotéis localizados nas praias no Norte da Ilha de Santa Catarina. Esse fato fez com que os hotéis localizados no centro da cidade passassem a sofrer a sazonalidade, diminuindo consideravelmente a ocupação e, conseqüentemente, a sua rentabilidade, pois os mesmos começaram a concorrer, na alta temporada, com os hotéis localizados nos balneários.

 

A expansão e crescimento da área central gerou novas centralidades e começou a surgir locais como a área polarizada pelo Shopping Center Beira Mar. A sua implantação induziu um tipo de crescimento diferenciado daquele exercido até então pelo núcleo histórico, por incorporar toda uma gama de facilidades de caráter multifuncional elitizante, com modernizações de infra-estrutura logística e no oferecimento de lazer e entretenimento intrínsecos ao empreendimento.

 

Seguindo a tendência de algumas cidades brasileiras em agregar valor aos atrativos naturais e devido à carência de um espaço apropriado para a realização de convenções e feiras na área central de Florianópolis, em 1998 foi lançado o empreendimento "Centro Sul de Convenções", atraindo fluxos do chamado turismo de negócios e eventos para a área central de Florianópolis[10]. Conforme menciona F. Santos (2005, p.165), há significativa ampliação da capacidade de hospedagem na área central da cidade. Segundo esta autora,

 

Atualmente, encontram-se em funcionamento 23 hotéis localizados no núcleo urbano central de Florianópolis, sendo que o maior crescimento do setor deu-se a partir da década de 1990, motivado pela expansão do turismo de negócios e eventos, principalmente após a abertura do centro de eventos da cidade, em 1998.

 

Da mesma forma que a indução de crescimento proporcionado pela implantação do Shopping Center Beira Mar, aquele centro de convenções está ampliando também as atividades para o turismo de negócios e eventos na área central. Mesmo não tendo sido fator fundamental, esse empreendimento teve participação importante nas melhorias da rede hoteleira da região, já que a entrada de bandeiras de redes com renomes nacionais e internacionais somente ocorreu na década de 1990. A partir de então, foram introduzidas modernizações nas diretrizes arquitetônicas adotadas na construção de novos empreendimentos e na (re)funcionalização de outros, visando a qualidade da prestação de serviços de hospitalidade, através das inovações tecnológicas, e em decorrência, principalmente, do perfil do novo cliente que começa a ascender na área central - o "turista" de eventos - trazendo competitividade ao mercado local.

 

A partir desse contexto não é difícil relacionar a importância que o turismo vem se inserindo entre as estratégias ditas de qualidade de vida atribuídas à população de Florianópolis. Aproveitando-se do incremento proporcionado pelo turismo não sazonal de negócios e eventos, as antes vagas de emprego abertas temporariamente, principalmente entre os meses de dezembro e fevereiro, tendem a ser mantidas durante todo o ano. Efeito este que não se restringe apenas à hotelaria, mas sim a toda cadeia produtiva, já que outros setores como o de alimentação, transporte, comércio e serviços também se beneficiam. É o que Lins (2000) denominou "senso de coletividade", onde os atores trabalham em simbiose para tirar proveito mútuo desta relação.

 

Nesse contexto, Yázigi (2003) define aquelas conexões não como fim em si mesmas, mas como meio de se tentar solucionar problemas de uma sociedade mal resolvida, capaz de ultrapassar a esfera das atividades econômicas e atingir necessidades locais e regionais. Mesmo que a inclusão no turismo esteja relacionada "apenas" à geração de emprego, os lucros podem ser compartilhados por todos através de obras e prestação de serviços regulados pelo Estado, privilegiando a coletividade e não apenas "minorias".

 

3          A área central sob novas tendências de turistificação

 

A organização espacial na área central de Florianópolis vem apresentando re-funcionalizações, decorrentes da expansão urbana, dentro de processos de transformação impostos pelo crescimento da própria cidade e das atividades ligadas ao terceiro setor, entre as quais nos últimos anos, vem se destacando aquelas relacionadas ao turismo.

 

Como atividade econômica o turismo está submetido às regras de mercado. Nesse sentido, é necessário (re)conhecer as assimetrias das duas forças que envolvem esta atividade: a oferta e a demanda. Pode-se dizer que o conhecimento das características da infra-estrutura local é mais (re)conhecido que as características do perfil da demanda turística. Este normalmente mais limitado às ofertas locais. Esta infra-estrutura se manifesta em instalações fixas e fáceis de serem listadas e quantificadas e se desenvolve com certa continuidade, enquanto que a demanda apresenta-se flutuante e variável, podendo ser conhecida somente através de um sistema de estatísticas em pesquisas confiáveis bem mais dispendiosa. Algo ainda bastante discutível na perspectiva local.

 

A área central de Florianópolis (Figura 1), que nas últimas décadas, vem apresentando demandas em crescimento, nela ainda, pode-se identificar limitação na oferta de produtos relacionados às atividades do turismo.

 

 

Figura 1: Caracterização da área de estudo

Fonte: adaptado de IBGE, 2008; IPUF, 2007.

 

Dessa forma, nesse ensaio procurou-se identificar elementos que se caracterizam como aqueles ligados às atividades turísticas praticadas na área central, através de meios de hospedagem e gastronomia, e de infra-estrutura urbana. Destacam-se aqueles elementos que demonstram fatores capazes de movimentar fluxos de pessoas e que se configuram como atração em potencial para o desenvolvimento daquela atividade.

 

Com isso, no percurso da análise desses elementos, buscou-se associar á idéia de espaço como "conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações (...)", onde estes não têm vida própria se não forem tomados em conjunto (Santos, 1999, p. 51). Ocorre, então, nessa abordagem uma perspectiva dialética no modo de como o sistema de objeto condiciona a forma e como se dão as ações num determinado lugar e, simultaneamente, o sistema de ações interfere levando a criação de novos objetos ou re-funcionalizando outros já existentes.

A partir desse viés metodológico, baseado em conceitos de sistemas de ações e objetos surgiram alguns questionamentos: Será que a área central de Florianópolis se dinamizou e se (re)funcionalizou, recentemente, apenas em contingências das relações com o turismo? Que mudanças ocorreram? Essas mudanças são favoráveis a que tipo de desenvolvimento turístico? A quê e a quem interessam esses processos?

 

E para analisar em conjunto, as tendências turísticas, tomou-se, também, o uso dos conceitos de fixos e fluxos proposto por Milton Santos. Diz ele:

 

Os elementos fixos, fixados em cada lugar, permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condições sociais, e redefinem cada lugar. (...) (Santos, 1999, p.50).

 

Desse modo, verifica-se, como as atividades de turismo se afirmam entre os elementos estruturantes de novas territorialidades influenciadas, portanto pela prática econômica e social. As condições ambientais e sociais modificam-se nas suas significações e assim vai o seu valor (re)configurando a área central de Florianópolis.

 

Este ensaio está caracterizado, por uma pesquisa exploratória, realizada através da metodologia sistemática CDP (Condicionante, Deficiência e Potencialidade)[11], com a qual pôde-se elencar algumas temáticas correspondentes a atividade turística, e que com o tempo tem, através dos novos objetos, realizados processos de mudanças, ou seja, por ações que vem a dinamizar quase toda a área central de Florianópolis. Na análise qualitativa utilizou-se coletas de dados estatísticos e observações in loco, assim como, fez-se consultas de outros estudos realizados por acadêmicos e/ou instituições que operam com essas temáticas.

 

Essa metodologia possibilita que se organizem criteriosa e operacionalmente os dados coletados, os quais proporcionam a identificação de problemas e oportunidades, de fácil visualização e compreensão do que ocorre na realidade pesquisada. Os dados levantados são classificados em três categorias fundamentais: Condicionantes, tudo aquilo que se refere ao ambiente natural ou construído; Deficiências, são situações de características negativas para a realização de funções urbanas e/ou regionais, sinônimos de estrangulamentos de caráter qualitativo e quantitativo no desenvolvimento de áreas, ou seja, significam problemas a serem solucionados; Potencialidades são os recursos ainda não aproveitados e que podem ser incorporados de modo positivo ao sistema urbano (Siebert e Souza, 1998). Assim, vejamos, de uma "maneira sintética", quais os resultados reconhecidos neste ensaio.

 

As formas herdadas de uma atuação passada, como já vimos anteriormente, são aquelas chamadas por Santos (2004), de rugosidades; elas continuam perdurando no espaço e tempo presentes. O processo histórico deixa heranças, marcas que podem ser importantes para a consolidação de novas etapas. Dessa forma, os locais históricos motivadores para o desenvolvimento do turismo no centro de Florianópolis são: igrejas, monumentos, mercado público, museus, casarios açorianos, logradouros. A atividade turística pode, assim, ser (co)responsável pela preservação desse patrimônio. Nesse sentido, verificou-se na análise realizada que no centro de Florianópolis existem alguns elementos classificados de condicionantes, que demandam manutenção, como edificações localizadas em ruas de destaque histórico (Bocaiúva, Esteves Junior, Conselheiro Mafra, Francisco Tolentino, Tiradentes, João Pinto entre outras) na Praça XV, no conjunto da Antiga Alfândega e no Mercado Público. Entretanto, em alguns locais, como na Rua João Pinto, ou na própria Igreja de São Francisco, há objetos históricos poderiam ser melhor aproveitados, com cuidados especiais nas suas recuperações e incorporar (re)funcionalizações dentro de um planejamento turístico coerente da área central.

 

Pode-se dizer, então, que a atividade turística permite estimular principalmente à população local, a apreciar dimensões de sua cultura, através de valorização da arte, da musica, do artesanato e da gastronomia. Na medida em que esses atrativos são filmados, fotografados, vivenciados também pelos os turistas aumenta o potencial de atratividade e do seu consumo como entretenimento (Cardoso, 2008). Com o aproveitamento de atividades tradicionais locais, entre as quais o artesanato (renda de bilro, a cerâmica, etc.) e o folclore local (boi de mamão, por exemplo), estes passam a caracterizar um estilo de vida reconhecido pelo termo "manezinho"[12], e são elementos ricos de potencialidade para serem incorporados ao desenvolvimento do turismo local.

 

Quanto aos serviços de alimentação/gastronomia, considerados como parte significativa da oferta turística, estes não devem ser vistos apenas com mero serviço prestado, mas sim como uma forma de expressão cultural, revelada, por exemplo, através de pratos típicos que podem despertar não só a curiosidade dos turistas, mas da própria população local ao reconhecerem-se frente àquelas manifestações identitárias. Segundo Silva (2006) esta situação pode enfatizar a afetividade sobre enfoques simbólicos, promovendo valorização e conservação de características culturais de uma localidade.

 

Por outro lado, falta de espaços públicos abertos às manifestações populares, artísticas e de lazer, principalmente para jovens e crianças é outro aspecto a ser destacado, na dimensão da cultura urbano-turística. Segundo Loureiro (2003), defasagens entre a demanda de áreas públicas e o incremento da densidade predial urbana aparece como problema em quase toda a cidade. Assim, áreas públicas como praças existentes na área central de Florianópolis são reflexos do tipo de equipamentos, geralmente direcionados para o lazer de adultos e idosos, como enfatiza Cunha. Diz ela:

 

Antes, as praças guardavam uma proporção espacial com o entorno próximo e suas pequenas dimensões atendiam perfeitamente ao equilíbrio paisagístico urbano e também ao número bem mais reduzido de usuários. (...) não havendo reformulação nem adaptação dos programas de atividades para as novas necessidades que foram surgindo, com o passar do tempo e com a evolução dos tipos de usuários. (Cunha, 2002, p. 368).

 

Outro aspecto a ser destacado na análise deste ensaio são os elementos relacionados especificamente aos meios de hospedagem (hotéis, flats e albergues) em maior parte, estão voltados a um perfil de clientela de executivos. São objetos verticalizados, sem efetivas áreas de lazer. Geralmente situados próximos uns aos outros, como nas imediações dos altos da Felipe Schmidt.

 

Com características predominantes de sazonalidades, verifica-se que nesses empreendimentos hoteleiros tradicionais estão acontecendo ajustes para os mesmos adaptarem-se às necessidades da crescente demanda de meios de hospedagem articulado com as atividades do segmento de eventos turísticos. Dessa forma, o centro passou a ampliar suas possibilidades de (re)funcionalização e atrair novos empreendimentos, como aqueles relacionados às redes hoteleiras de bandeiras internacionais, as quais contribuem com o dinamismo das (re)configurações locais.

 

Essa (re)configuração remete-nos as idéias de Milton Santos (1994), mostrando como o processo de globalização (através de redes) unifica os mercados, oferecendo uma multiplicidade diferencial de centros, extremamente dinâmicos, de caráter as vezes efêmero e/ou transitório, que pode vir a criar desarticulações na escala do local, do regional e do nacional, ignorando fronteiras. Dessa maneira, o sentido de desenvolvimento das formas de produção material vão tomando dimensões para a produção do consumo não-material, onde o lazer e o turismo aparecem como produtos criados e ampliados pela sociedade de consumo de massa, expandidos de acordo com demandas a serem atendidas (Rodrigues, 1997, p. 64).

 

Acrescenta-se que existem também na área central, poucos espaços destinados para estacionamento de automóveis, criando desse modo "usos e abusos" dos logradouros como opções para veículos. As poucas áreas em geral de domínio público (como em alguns pontos dos aterros) foram transformadas em estacionamento controlados por empresas quase sempre privadas. Com isso ampliam-se os problemas de acessos e circulação de pedestres percebe-se conforme Jacobs (2000), esse conflito nas ruas advém principalmente da quantidade esmagadora de carros em favor dos quais todas as necessidades dos pedestres sempre são sacrificadas, assim, como condição para qualificar os espaços urbanos, é necessário que haja um equilíbrio entre esses fluxos.

 

Entretanto, para que o núcleo receptor turístico chegue a um nível satisfatório de governança e que atenda as necessidades de sua clientela outros fatores também são determinantes: atrativos com infra-estrutura de qualidade e desenvolvimento tecnológico reconhecidos globalmente (telecomunicações, transporte, condições sanitárias), dentre outros (Barreto, 2001).

 

Finalmente no que diz respeito à infra-estrutura urbana verifica-se que existem  pontos de estrangulamento como constata a pesquisa realizada por Oliveira a respeito da "análise espacial de equipamentos e serviços turísticos como apoio à gestão das atividades turística da Ilha de Santa Catarina". Nessa pesquisa,

 

As análises demonstram também que através do perfil de mobilidade dos turistas, a malha viária existente na Ilha tem um papel inibidor para que a satisfação destes turistas seja alcançada. (Oliveira, 2000, p. 97).

 

Portanto, deficiências existentes no sistema viário e de transportes em geral, ampliam dificuldades como as de acesso a um maior numero possível de usuários daquele sistema na área central, causados principalmente pelos congestionamentos e carência de estacionamentos, notadamente quando o contingente é acrescido por diferentes fluxos (coletivo ou particular) de turistas.

 

Desse modo, as estratégias em curso de revitalização e a (re)funcionalização da área central, devem não apenas articular o passado no presente através de resgates da memória coletiva por exemplo, mas gerar possibilidades integradoras de vários tipos infra-estruturas capazes de promover o desenvolvimento com inserções de modernidades que criem inclusões pelos diferentes tipos de demandas nas atividades de lazer e turismo.

 

4          Considerações finais à guisa de conclusão

 

Nos propósitos deste ensaio, as análises de elementos relacionados à atividade turística e o seu papel na área central de Florianópolis, por diferentes ações de agentes público e privados, foi possível identificar como vêm sendo inseridas, gradativamente, estratégias de dinamização daquela região às novas possibilidades de suprimento de deficiências da cidade, decorrente das sazonalidades até então predominantes.

 

Assim, verificou-se que está em curso, à ampliação dos mais diferentes tipos de potencialidades do segmento turístico, nos nichos de negócios que a atividade pode oportunizar, articulando padrões de processos da urbanização local. Vale ressaltar que este ensaio abordou-se apenas alguns aspectos diretamente ligados ao turismo tais como: ofertas básicas de infra-estrutura, hospedagem e gastronomia e infra-estrutura geral da cidade. Esses aspectos são aqueles que, a partir dos nossos objetivos de estudo, se identificam entre os que estão motivando ações público-privado nas estratégias de refuncionalizaçao (até reformas) urbanas da área central da cidade.

 

A metodologia CDP - Condicionante, Deficiência e Potencialidade (adaptada do CNDU - Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano) proporcionou  uma dada sistematização de aspectos diagnosticados que podem, se (re)potencializados, oferecer diferentes estratégias de políticas de desenvolvimento àquela região da cidade. Bem como, a partir das condições de ofertas identificadas, com peculiaridades e limitações, permitiram em nossas reflexões acadêmicas, que estabelecêssemos relações entre os possíveis produtos de turistificação articulada aos processos de urbanização ora em curso.

 

Não se trata apenas da (re)adaptação ou (re)funcionalização de atividades de turismo que se realiza nessa área mas também, do que essas atividades geram em termos de significação para a mesma. São assim, atividades que vêm se transformando e apresentando novos conteúdos e significados trazendo consigo também novas identidades, através de ações públicas ou privadas, que condicionam formas levando à criação de novos objetos, num permanente movimento (totalização) entre escalas espaciais.

 

Diante dos resultados acima esboçados, verifica-se que ações de turistificação e tendências de adensamento da urbanização ocasionam uma série de preocupações que nos faz refletir sobre a seguinte questão síntese: se não forem avaliadas e tomadas medidas corretivas, preventivas e permanentes em relação a situação diagnosticada, como ficará a área central de Florianópolis, daqui algumas décadas, em relação à uma almejada qualidade de vida urbana para a cidade? Não houve intenções de oferecer respostas acabadas neste ensaio mas, dentro dos nossos propósitos suscitam questionamentos e reflexões, como que estão associadas neste texto.

 

 

Notas



 

[1] Versão ajustada de texto apresentado como trabalho final, em grupo, para a disciplina Tópicos Especiais de Desenvolvimento Urbano e Regional: Turismo, no PPGeo/UFSC - Florianópolis -SC, semestre 2007/1.

 

[2] A área central de Florianópolis localiza-se no Triângulo Central que abrange o Centro Histórico - núcleo original da cidade, situado ao redor da Praça XV de Novembro, e possui como ruas limítrofes, ao Norte, a Rua Almirante Lamêgo com continuação na Rua Bocaiúva; ao Sul, a Avenida Paulo Fontes; e a Leste, a Avenida Mauro Ramos. (IPUF, 2004).

 

[3] O Largo da Matriz é o que se convencionou chamar de núcleo histórico de Florianópolis, formado pela Praça Central e pelas principais edificações da época nos seus limites (Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro, Casa de Câmara e Cadeia e o Palácio do Governo). E no Largo do Palácio, localizava-se o porto e seus equipamentos de suporte  construídos pela intensificação das atividades portuárias, como a Casa da Alfândega e o Mercado Público. São esses resquícios do passado ainda presentes na paisagem de Florianópolis que foram denominados de rugosidades por Milton Santos.

 

[4] Projeto de urbanização e paisagismo elaborados por Burle Marx, na década de 1970.

 

[5] Com mais de 800 metros de comprimento, a ponte foi fechada por motivo de segurança em 1982 e reaberta apenas para o tráfego de pedestres, bicicletas e motocicletas entre 1988 e 1991. Desde então seu propósito é restrito apenas à questão visual. Em 2006 foi iniciado o seu processo de restauração com o intuito de recuperar por completo a capacidade de tráfego. O  término das obras está previsto para 2010. Além do transporte rodoviário, outra alternativa que está em fase de estudo de viabilidade, para ser adaptada ao leito da ponte, é o metrô de superfície (IHGSC, 2007).

 

[6] O Parque da Luz, possui uma extensão de 37.500 m², considerado uma das últimas áreas verdes do Centro de Florianópolis. Até a década de 1940 foi sítio do cemitério público municipal e na década de 1980 praticamente funcionou como "lixão" a céu aberto. Por este parque, fruto de conquista de movimentos populares há mais de uma década, a comunidade do entorno travou batalhas jurídicas contra proposta da Prefeitura de ali construir sua nova sede. Somente no ano de 2007, com a alteração de zoneamento de uma área de 6.500 m² localizada dentro do próprio parque, o local passou então,  a ser totalmente protegido por lei (Passamai, 2007).

 

[7] Dias (2005) definiu essa forma isolada e pontual de preservação de "ilhas de memória".

 

[8] O Projeto Renovar visa não apenas a preservação dos aspectos materiais e técnicos da edificação e a sua conseqüente refuncionalização, mas também a revitalização de seus aspectos sociais e culturais inerentes ao entorno e ao contexto da edificação dentro do cotidiano de Florianópolis. Além da edificação em si, programas de melhorias de infra-estrutura, pavimentação, equipamentos urbanos e despoluição visual agregaram valor ao conjunto da obra, como ocorreu na Rua Felipe Schmidt. (Adams e Araújo, 2003).

 

[9] A concentração localizava-se no entorno da Rua Felipe Schmidt e nas proximidades do acesso à Ponte Hercílio Luz, o que se convencionou chamar de "altos" da Felipe Schmidt por estar situado no topo do morro que serve de cabeceira para a ponte.

 

[10] O empreendimento "Centro Sul Centro de Convenções"  não foi o pioneiro na implantação do turismo de negócios e eventos em Florianópolis. Alguns hotéis da área central já dispunham de estrutura para eventos de pequena escala, além de competir com outros localizados nas praias do norte da ilha.

 

[11] Metodologia elaborada pelo CNDU - Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano. Foi desenvolvido pelo grupo alemão Cooperação Técnica Alemã (GTZ), grupo que no Brasil oferece sua cooperação para elevar a capacidade de atuação das pessoas e das organizações. (GTZ, 2007). Esse instrumento foi implementado em Santa Catarina por meio do Gabinete de Planejamento do Estado (GAPLAN), no ano de 1983. (Siebert e Souza, 1998).

 

[12] Manezinho, termo popular que passou a designar identidades culturais dos nativos de Florianópolis, capital de Santa Catarina. No passado era associado num sentido pejorativo. A sua propagação recente pelo tenista Gustavo Kuerten como autentico ilhéu, promoveu o termo e o elevou  à condição de "marketing".

 

 

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