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Actas del XI Coloquio Internacional de Geocrítica

LA PLANIFICACIÓN TERRITORIAL Y EL URBANISMO DESDE EL DIÁLOGO Y LA PARTICIPACIÓN

Buenos Aires, 2 - 7 de mayo de 2010
Universidad de Buenos Aires

 

O LUGAR DOS SABERES E SABORES DA (RE)PRODUÇÃO CAMPONESA: UM OLHAR SOBRE A FEIRA-LIVRE DE LIVRAMENTO DE NOSSA SENHORA (BA)

 

José Aparecido Lima Dourado

josephdourado@yahoo.com.br

 

Helena Angélica de Mesquita

helena@wgo.com


O lugar dos saberes e sabores da (re)produção camponesa: um olhar sobre a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora (BA) (Resumo)

Entender as múltiplas estratégias de resistência camponesa aos intensos processos de homogeneização sociocultural, impostos pelo atual modelo de desenvolvimento adotado para o campo brasileiro é colocado aos geógrafos e demais estudiosos das Ciências sociais como um desafio bastante contemporâneo. Nesse artigo, procura-se analisar a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora (Ba) enquanto locus privilegiado para a (re)produção e (re)invenção de práticas socioculturais camponesas. Para a realização desse trabalho fez-se necessário ir à campo para verificar como as práticas socioculturais camponesas estão presentes no espaço da feira-livre, de modo que fossem evidenciados como os produtos vendidos pelos camponeses trazem materializados em si os saberes e sabores tradicionais de seu modo de vida. 

Palavras-Chave: Feira-livre. Experiências camponesas. Saberes tradicionais. Livramento de Nossa Senhora


The place of knowledge and flavors of (re) production peasant: a look at the fair-free of Livramento de Nossa Senhora (BA) (Abstract)

Understanding the multiple strategies of peasant resistance to the intense processes of cultural homogeneization imposed by the current development model for Brazilian countryside is set to geographers and other scholars of social sciences as a challenge rather contemporany. This paper intends to analyze the fair-free of Livramento de Nossa Senhora (BA) as locus for the (re) production and (re)invention of peasant cultural practices. To carry out this paper it was necessary to go to the fiel to see how the farmers' cultural practices are present within the market-place so to be shown as those sold by the peasants themselves mateialized bring the knowledge and flavors  of its tradicional way of live.

Keywords: Fair-free. Experiences peasant. Traditional knowledge. Livramento de Nossa Senhora.


 

Introdução

O amadurecimento das reflexões feitas no transcorrer do presente texto decorrem das leituras e debates realizados durante a disciplina Identidade Cultural, Relações espaço-poder e Territorialidade, ministrada pela professora Maria Geralda de Almeida do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás/Campus Catalão. O interesse pela temática surgiu porque em Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, o simples ato de ir à feira se transforma numa possibilidade de aproximação com múltiplos símbolos culturais, cuja pluralidade é também um elemento denunciador das contradições que perpassam a vida no campo.[1]

 As feiras-livres fazem parte da própria existência das pequenas cidades. Muitas são aquelas que surgiram a partir de uma feira-livre, geralmente considerada por seus frequentadores como um elemento dinamizador da cultura do povo local. Especialmente no Nordeste brasileiro, esses espaços têm sido, ao longo dos tempos, o locus da materialização de costumes e tradições culturais, assumindo o importante papel para o estreitamento de relações entre sujeitos que, por interesses diversos, frequentam as feiras-livres em busca da satisfação de necessidades, tanto materiais quanto imateriais.

Antes de adentrar a discussão proposta no presente texto, algumas observações devem ser feitas para, de antemão, alertar o leitor sobre possíveis "falhas teóricas" contidas nas próximas páginas. Embora o texto faça uma leitura geográfica da feira-livre de Livramento de Nossa Senhora, é importante destacar que não se trata de um estudo urbano. A intenção do autor é demonstrar como o modo de vida camponês extrapola o espaço rural e se materializa na cidade, e como isso contribui para a manutenção de sua identidade política e social.

Pensar os espaços das feiras-livres requer, antes de mais nada, conceber as imbricações que perpassam  as relações estabelecidas entre os sujeitos que a frequentam, visto a necessidade de identificar as funções e significados que as mesmas têm para a dinâmica das pequenas cidades. Nesse artigo procura-se analisar a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora/BA enquanto locus privilegiado para a (re)produção e (re)invenção de práticas socioculturais camponesas.

Para a construção desse texto fez-se necessário a realização de uma pesquisa bibliográfica para identificar autores que abordam as temáticas: cultura e campesinato. Referente à cultura, deu-se ênfase às ideias de Claval (2008) e Almeida (2003). As reflexões sobre o modo de vida camponês terão como foco de abordagem as discussões suscitadas por Martins (1990), Oliveira (2003), Fernandes (2008) e Woortmann (1990).

A realização do trabalho de campo mostrou-se imprescindível no processo de análise dos atores que inter-relacionam na feira-livre de Livramento de Nossa Senhora. Durante a visita a campo conversamos com os camponeses e comerciantes, tornando possível verificar como são efetivadas as trocas comerciais e quais são os critérios éticos que regem essas trocas e identificar quais os produtos são comercializados pelos camponeses.

Vale destacar que o artigo não tem a pretensão de esgotar a discussão, sendo tão-somente uma provocação ao debate. Na verdade,  o desejo é fomentar a reflexão acerca das estratégias camponesas de (re)produção e (rei)nvenção de seu modo de vida, de maneira que as peculiaridades do fenômeno em questão sejam consideradas sob a luz de uma teoria que dê conta de abarcar a sua dinamicidade.

Os resultados apresentados a seguir demonstram que o camponês, e aqui especificamente, o camponês do Sertão nordestino, reconhece a feira-livre como um lugar capaz de oferecer-lhe mais que a realização material de seus desejos. Os camponeses buscam, naquele espaço momentos de lazer, de encontros e reencontros, o que explica os motivos pelos quais começam a frequentar assiduamente aquele espaço desde crianças.

Contextualizando o estudo: um olhar sobre a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora/BA

Situado a 722km da capital do estado, Salvador, Livramento de Nossa Senhora possui uma população de aproximadamente 40 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE, 2007). Trata-se de um município com uma forte tradição agrícola, tendo a feira-livre um importante papel para o escoamento da produção, visto a quantidade de pessoas que buscam naquele espaço uma possibilidade de acesso a produtos de boa qualidade e com preço acessível.

Ainda hoje, a população de Livramento de Nossa Senhora, tem o hábito de frequentar a feira-livre aos sábados, cujo dia de realização somente é alterado quando coincide com feriados festivos e/ou religiosos municipais. Instituída desde o século XVIII, esta já é considerada como um dos elementos culturais de seu povo, devido sua importância para a comunidade local. Naquele dia uma diversidade de produtos é posta à venda por preços acessíveis, revelando os mecanismos de reprodução das famílias que levam para a feira os frutos de seu trabalho.

Até os anos 1952, a feira-livre acontecia numa pequena praça no bairro Tomba, bairro esse localizado no centro da cidade, na parte mais antiga, onde situavam  casarões construídos em estilo colonial, antigas residências das primeiras famílias livramentenses. Com o crescimento da cidade, houve a necessidade de mudar o local de realização da feira porque a praça era pequena e não dispunha de espaço para a construção do mercado municipal. Ainda em 1952, durante o governo de João Correia e Silva (26/08/1951 a 06/04/1955), a feira-livre foi transferida para a praça Aloísio Short, hoje denominada de Praça João Marques, onde continua até a atualidade.

Dos muitos aspectos a serem abordados nesse artigo, destacam-se, primeiramente, as questões culturais evidenciadas na constante movimentação de pessoas que procuram, em meio ao aglomerado de camponeses e comerciantes ambulantes, os produtos com melhores preços e melhor aparência. Na feira-livre acha-se muitas coisas, desde ervas para os muitos tipos de chás e remédios caseiros, até mesmo, frutas típicas  da Caatinga, colhidas durante a época das chuvas.

Saberes e sabores da (re)produção camponesa: os simbolismos presentes na construção do lugar de vivência.

Entender as interfaces das práticas socioculturais camponesas, a partir da análise da feira-livre, se coloca como uma questão desafiadora para o geógrafo e demais estudiosos das Ciências Sociais, porque não se trata apenas de uma racionalidade pura e simplesmente econômica. Quando, por exemplo, o camponês produz um tipo de doce ou recolhe da Caatinga seus frutos, dá visibilidade aos saberes tradicionais que direcionam a sua vida, já que demonstra a existência de uma relação "com" e não "contra" a natureza. A  reprodução dos saberes e sabores camponeses ocorre, nesse sentido, a partir do lugar social onde estão devido à compreensão de mundo que possuem.  

Entre os meses de dezembro e fevereiro, é notável a maior variedade de produtos (muitos deles decorrentes do extrativismo), havendo também um maior fluxo de pessoas. Isso  não é uma mera causalidade. Um dos condicionantes para esse fenômeno é o fato de que, nesse período, os camponeses estão no auge da colheita de suas plantações, como feijão de corda, melancia, milho, mandioca, batata, jaca, além de produtos extraídos da Caatinga como o umbu, o pequi e uma diversidade de ervas como a casca de caatinga de porco, semente de umburana, contra-ervas, casca da aroeira, todas usadas em chás caseiros. As indicações são as mais variadas possíveis, desde os chás para dores estomacais até os torrados feitos com fumo de corda com casca de caatinga de porco usado para combater os efeitos da sinusite.

A relação de doces e compotas também merece destaque. Durante os meses de novembro a fevereiro essa variedade é bem maior, por conta das frutas nativas que são recolhidas pelos camponeses e transformadas nos mais diferentes tipos de doces, dentre os quais destacam-se o doce de umbu e a compota de jaca. Doce de leite, de manga, compota de goiaba e o doce da casca de limão são algumas das muitas receitas da cozinha camponesa nordestina que são passadas de geração para geração. Acrescenta-se a essa relação, a rapadura, presente em muitas histórias contadas pelos sertanejos. De acordo com os causos contados pelos sertanejos, durante as longas secas, muitas famílias passavam apenas comendo farinha de mandioca com rapadura que é considerada como um "alimento forte".

Outro aspecto muito característico da feira-livre é a quantidade de bolos caseiros que podem ser encontrados, como o bolo de puba, o beiju, o bolo avoador, o bolo de milho verde, o bolo de aipim e a pamonha. Tem-se nesse contexto, a ocorrência de elementos simbólicos que permitem afirmar que a feira-livre possui uma importante função no que tange à materialização das narrativas entre espaço, a cultura e o camponês, porque permite a exploração de traços culturais que são muito específicos de um determinado grupo social. 

A maneira como o sertanejo camponês interage com a Caatinga desvela a dimensão subjetiva de sua percepção em relação ao lugar de vivência, valorizando-a por tudo o que ela pode lhe oferecer.  De acordo com Almeida (2003, p. 81), "A caatinga propicia ao sertanejo diversos chás, compressas e lambedores para os mais diversos usos." Esse pertencimento do camponês em relação à Caatinga nos diz muito sobre suas estratégias de resistência presenciadas na feira-livre. Ainda sobre os processos culturais, Claval (2008, p. 26) destaca que "Através da interiorização das práticas, dos conhecimentos e dos valores que ele recebe, o indivíduo torna-se uma pessoa, com uma identidade pessoal e social. Graças à cultura, o homem torna-se um ser social."

É cena comum, encontrar famílias camponesas inteiras na feira-livre vendendo os excedentes de sua produção em barracas ou pedaços de lona estendidos pelo chão. A organização social da unidade camponesa acaba refletindo em seu comportamento na feira-livre, pois o ato de vender os excedentes geralmente é feito por dois ou mais integrantes da mesma família, de modo que, concordando com Carvalho (2005, p. 44) quando este afirma que "a unidade de produção camponesa é o resultado do trabalho dos membros da família proprietária." 

Aparentemente desorganizada, a feira-livre possui uma ordem estabelecida em função das relações entre aqueles que ali vendem seus produtos. Face a essa realidade, é necessário destacar a sua importância para a revitalização do campesinato que busca vender, na cidade, seus excedentes para que possa adquirir aquilo que não consegue produzir.

Cada ator sintagmático (Raffestin, 1993) ao dirigir-se à feira-livre já reconhece determinada fração daquele espaço como sua, o que é comprovado pela inexistência de conflitos por conta da ocupação de um local por outrém.  Nesse sentido concorda-se com Raffestin (1993, p. 210) quando afirma que "o espaço não é um dado, mas uma criação". Ainda sobre o processo de construção do espaço a partir das trocas sociais, destaca-se a concepção de Gupta e Ferguson (2000, p. 44), pois os autores nos dizem que "[...] espaço e lugar nunca podem ser "dados", [...]". Na verdade, o hábito de frequentar a feira-livre é uma prática tão valorizada pelos camponeses, ao ponto desse espaço se transformar num "espaço de vida" (Fonseca, 2005, p. 86), apropriado em função de escalas de representações variadas. A compreensão de espaço de vida desenvolvida aqui remete à ideia de pertencimento, de empatia, mediante a presença de elementos valorizados pelos sujeitos que o frequentam.  Enquanto que, a maioria dos citadinos, procuram-na apenas para realizar compras, muitos camponeses transformam sua ida à feira-livre num passeio  prazeroso. Nesse sentido, um olhar mais arguto da realidade em foco, leva o observador a perceber que a atuação do Estado produz relações dissimétricas que distinguem de modo preciso os atores sintagmáticos frequentadores da feira-livre de Livramento de Nossa Senhora. Veja-se, por exemplo, que o espaço coberto, onde acontece a feira-livre, é, geralmente, ocupado por pequenos comerciantes (e, geralmente, não camponeses), que possuem uma infraestrutura mínima à disposição, ao passo que os camponeses ocupam, via de regra, as ruas ao redor do mercado municipal, onde armam suas barracas ou simplesmente estendem um pedaço de lona no chão, na qual expõem seus produtos à venda.

A reflexão sobre as atuais condições de vida dos camponeses, sobre suas formas de organização social, bem como as representações culturais que emanam de suas ações, precisa ser situada numa lógica que ultrapasse a simples visão econômica.  Em outras palavras, ao interpretá-los como sujeitos inseridos no processo de reprodução do capital, deve-se atentar para as diversas estratégias utilizadas pelos mesmos para burlar a exploração a que são submetidos e, assim, resistir às múltiplas tentativas que visam descaracterizar seu modo de vida e sua identidade.

Na perspectiva de compreender os simbolismos presentes no imaginário camponês que se desvela nas relações dos homens entre si e com o seu meio, é imprescindível levar em consideração os aspectos políticos, econômicos e sociais que interferem diretamente no seu modo de organização social. A força exercida pelos símbolos, pelo imaginário e imagens é algo bastante elucidativo do modo de vida, e retratam de forma  fidedigna os problemas vivenciados pelos camponeses em sua luta cotidiana para permanecerem na terra de trabalho.

 Dentre as características das atividades desenvolvidas no espaço da feira, podemos citar as relações diretas e personalizadas, tendo os fatores amizade e fidelidade, grande importância no que tange à efetivação das transações comerciais, tanto a vista quanto a prazo. O ato de comprar e vender se transforma em manifestações de ética, respeito e confiança recíprocos que valem "mais que dinheiro" porque entra em cena o que Woortmann (1990) denomina de ética da campesinidade,  expressão de uma ordem moral. Ainda segundo esse autor "A campesinidade, em sua rejeição do negócio e do lucro dele resultante, não significa que camponeses sejam, necessariamente pobres."

Os produtos vendidos pelos camponeses são a materialização da cultura e do imaginário social daqueles que os produzem, que expressam através de seu trabalho (em grande parte artesanal) as concepções de mundo que regem o seu modo de vida e suas representações espaço-temporais. Mais que um produto, trata-se da compilação de saberes tradicionais centenários que são repassados e ressignificados devido às trocas sociais da atualidade. Desse modo, concorda-se com Rossetto (2006, p. 15) quando afirma que "[...] cada indivíduo é portador de um sistema cultural em transformação constante, sendo estruturado pelos valores adquiridos no decorrer de sua trajetória pelos ensinamentos que recebem e pelas experiências vividas." As práticas sociais são assim, instrumentos reveladores de representações que permanecem vivas no modo de vida camponês, mesmo diante dos intensos processos homogeneizantes em decorrência da acentuada política de modernização do campo desenvolvida em parceria entre o Estado e o grande capital.

Não se quer, aqui, desenvolver uma discussão idílica do universo camponês, até porque não se trata de um ator que vive num espaço-palco congelado e sem interferências externas. Seu modo de vida nada tem a ver com o dualismo expresso pelo camponês "atrasado" e o citadino "moderno". A nosso ver, essa concepção já foi superada, o que de fato demonstra a vitalidade e envergadura das práticas socioculturais camponesas. Nessa perspectiva, não há motivos para considerar válida a tese que sustenta o fim do campesinato no Brasil, pois a sua participação na agricultura brasileira é inegavelmente significativa, tanto no âmbito da produção de alimentos quanto na geração de trabalho e renda.

A opção adotada nesse texto é a de entender que o universo camponês, assim como o universo do agonegócio, é permeado por opções políticas, muitas delas de enfrentamento ao modelo de desenvolvimento adotado para o campo e tido como ideal. É preciso entender as  contradições que há na leitura feita pelos analistas em relação ao campesinato, já que muitos deles desconsideram a ideia de resistência do camponês frente ao agronegócio.

Necessário se faz destacar que é papel importante da Geografia e demais Ciências Sociais, compreender a complexidade desses fenômenos e suas significações para que a interpretação dos processos de (RE)existência camponesa transcenda às causalidades concretas e passe a contemplar as particularidades que compõem a relação campo-cidade e cidade-campo. Nessa perspectiva, Oliveira (1994, p. 55) afirma que " [...] a cidade é palco e lugar das lutas rurais/urbanas e/ou urbanas/rurais".

A propósito, esse texto não se furta da análise do processo de reprodução camponesa frente à territorialização do capital tão presente na realidade do campo brasileiro. Se o caráter produtivo camponês ficou mais dependente na medida em que há uma intensificação das trocas entre campo-cidade, havendo quem determinasse o fim do campesinato devido a sua incapacidade de aderir ao desenvolvimento tecnológico, cabe ressaltar que a designação "camponês" traz em si uma conotação política muito forte que expressa a sua postura contrária ao modelo de desenvolvimento adotado para a agricultura no Brasil.

Embora o campesinato seja utilizado pelo capital no processo produtivo, concorda-se com Fernandes (2008, p. 49) quando afirma que "o campesinato não é parte integrante do capital, mas está subalterno a ele". Ao entrevistar os camponeses que comercializam seus produtos na feira-livre de Livramento de Nossa Senhora pode-se verificar que, ao vender os excedentes de sua produção, os camponeses estão utilizando de estratégias para captação de recursos financeiros para continuarem no campo, preservando uma vida digna. Frente às dificuldades decorrentes da falta de incentivos governamentais à agricultura voltada para a produção de gêneros destinados ao consumo interno, os camponeses têm a feira-livre como um espaço privilegiado para a aquisição de recursos financeiros necessários à reprodução da unidade familiar.   

Pensar a reprodução camponesa sem considerar os embates políticos entre os atores sintagmáticos distintos e antagônicos que permeiam esse fenômeno é, pois, assumir uma posição contrária à legitimação da luta histórica entre o campesinato e o capitalismo. De acordo com Martins (1990, p. 177), "Não há como fazer para que a luta pela terra não seja uma luta contra o capital, contra a expropriação e a exploração que estão na sua essência". Aqui reside uma questão crucial para a análise da feira-livre de Livramento de Nossa Senhora que é a oferta de produtos a preços acessíveis à população.

A implantação do projeto de irrigação no vale do Rio Brumado na década de 1980 pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), representou grandes transformações para a agricultura de Livramento de Nossa Senhora. Desde então, a agricultura praticada na área do projeto de irrigação modernizou-se, estando basicamente voltada para a produção de manga para exportação.

Com a finalidade precípua de desenvolver a produção familiar camponesa, esse empreendimento estatal acabou desvirtuado, criando assim as condições favoráveis à territorialização do capital que passou a dominar as práticas agrícolas, direcionando-as para atender ao mercado externo. Vale ressaltar que é pouco comum encontrar na feira-livre de Livramento de Nossa Senhora pessoas vendendo a manga produzida no projeto de irrigação, pelo fato de não haver, entre os produtores, o objetivo de comercializar internamente a sua produção. Para a população local a manga produzida no município é algo bastante distante de sua realidade, parece não fazer parte do universo de vivência. Sobre o processo de modernização da agricultura no Cerrado brasileiro, Mesquita (2009) destaca que

"As práticas da agricultura moderna têm contribuído para a degradação ambiental em todas as regiões do mundo, e no Brasil o processo é mais grave porque ao se importar modelos tecnológicos não há uma preocupação em se considerar peculiaridades locais do solo, relevo, clima e mesmo dos aspectos culturais da população. O cultivo em solos inadequados às monoculturas tem contribuído muito para o avanço do processo de erosão e compactação dos mesmos. E a erosão também gera o assoreamento dos mananciais. O uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos compromete o ambiente, com a destruição dos nutrientes naturais dos solos e contaminação dos recursos hídricos. O mais grave é que todas essas práticas são estimuladas por políticas agrícolas adotadas pelo governo nas últimas décadas. E os saberes e fazeres de populações que habitam o Cerrado secularmente são sistematicamente desprezados, quando não apropriados pelo capital para sua  reprodução." (MESQUITA, 2009).

Assim como no Cerrado brasileiro, após a implantação do projeto de irrigação em Livramento de Nossa Senhora, as lavouras de arroz, feijão, milho, mandioca e hortaliças foram gradativamente substituídas por grandes cultivos  de manga, o que provocou uma redução significativa na produção de gêneros que fazem parte da dieta alimentar da população local. No interior do município, onde o processo de modernização agrícola é menos expressivo, as lavouras de feijão, milho, arroz, fumo, algodão, melancia, abóbora e mandioca são cultivadas durante o "período das águas", ou seja, entre os meses de novembro e fevereiro, quando as chuvas são mais frequentes na região. Para os camponeses que não possuem terras em áreas irrigáveis, o plantio de lavouras é bastante limitado entre os meses de estiagem.

A despeito da intensificação do processo de modernização da agricultura em Livramento de Nossa Senhora, a responsabilidade de produzir os alimentos destinados à população acaba por ser imputada às unidades familiares camponesas, tipicamente consideradas como "atrasadas", das quais destacamos os irrigantes pouco afeitos ao empreendedorismo exigido pela produção de manga. Assim, é mais coerente destacar as unidades familiares camponesas como espaços de resistência que, mesmo com toda a pressão exercida pelo agronegócio, continuam a serem cultivadas com lavouras de milho, mandioca, feijão e verduras.

Se, por um lado, a produção de manga encontra-se totalmente direcionada para o mercado externo, não considerando as necessidades locais, a agricultura camponesa que ainda persiste no interior do projeto de irrigação está centrada na produção de gêneros comercializados majoritariamente no próprio município e consumidos pela população local.  Nesse sentido, a contradição posta pelo embate entre o agronegócio e a agricultura camponesa  materializa-se pelo discurso do "desenvolvimento" que há em função da produção de manga ao passo que a produção de alimentos é secundarizada e posta como um apêndice das terras inadequadas às lavouras de manga.  

Representações e significados da feira-livre para o camponês

Embora os processos inerentes à globalização tenham estimulado a homogeneização dos costumes e práticas sociais, principalmente na cidade, pode-se afirmar que a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora ainda consegue arrematar as diferenças e permanências da cultura camponesa. Aquele espaço traz consigo a confluência de aspectos considerados "modernos" e aspectos tidos como "atrasados" de pessoas que, mesmo morando num mesmo município, possuem uma relação diferenciada no que diz respeito aos fins utilitários que atribuem à feira-livre.

Essa hibridização de hábitos e costumes culturais demonstra que a feira-livre pode e deve ser concebida a partir da subjetividade presente nas múltiplas identidades presentes em seu interior. Conclui-se com esse pensamento que os significados e representações da cultura camponesa desvelam a riqueza de valores que dão sentido às práticas material e imaterial pelo qual o camponês se relaciona com o seu universo de vivência.

O entrelaçamento entre o simbólico, o real e o imaginário camponês é edificado a partir da apreensão da realidade. Ao entrevistar o Sr. M.P.D[2] um camponês de 77 anos de idade e cuja história de vida é marcada por visitas semanais à feira-livre, desde os sete anos de idade, percebe-se que as transformações ocorridas naquele espaço ao longo dos anos não são suficientes para desconstruir as lembranças que povoam o seu imaginário. Ao conversar com o Sr. M.P.D é possível verificar a maneira carinhosa como ele se refere à feira, afirmando que só fica sem frequentá-la se estiver muito doente.

Em sua fala ficou evidente o fato de que em sua juventude o ato de ir à feira era  tido como uma espécie de ritual, que começava mesmo na quinta-feira com os preparativos.  A viagem era feita em cavalos e, em alguns casos, a pé ou em carros de bois, que levavam, desde ovos de galinha até o requeijão, acondicionados em bruacas[3] para serem comercializados. Geralmente os camponeses partiam de suas localidades nas primeiras horas do dia de sábado, formando, muitas vezes, grupos com até oito cavaleiros em marcha rumo à cidade. Durante o percurso os camponeses conversavam sobre assuntos variados, desde os acontecimentos do lugar até as "coisas do mundo".

O camponês demonstrou certo saudosismo, ao afirmar que "Antigamente tudo quanto é gente gostava de ir na feira, mais hoje nem todo mundo gosta, só os mais véi. Antes era um lugar mais tranquilo, ninguém tinha procupação com ladrão. Hoje tem muita gente que foi roubado. A gente encontrava aquele monte de amigo. [...] era uma grandeza[4]". Essa é uma evidência de que o crescimento urbano veio acompanhado de mazelas sociais como o aumento da criminalidade, ocasionando mudanças significativas na maneira de relacionar entre as pessoas que frequentam a feira-livre de Livramento de Nossa Senhora.

Durante a pesquisa de campo, algumas questões apresentaram-se latentes aos olhos do pesquisador como, por exemplo, a presença no mesmo espaço de produtos decorrentes do trabalho familiar camponês, tido como "pouco elaborados" e de produtos "Made in China". Tem-se nessa fração do território a materialização de elementos marcantes no atual contexto histórico do capitalismo, dos quais destaca-se o intenso fluxo de mercadorias advindos da indústria (produtos importados da China) enquanto que os produtos vendidos pelos camponeses revelam a luta destes para permanecerem na terra de trabalho.

Os camponeses demonstram grande apreço ao falar de sua relação com a feira-livre. Se, com o passar dos anos houveram transformações consideráveis na maneira como as pessoas se relacionam naquele espaço, pode-se afirmar que há também uma ressignificação e re-definição de elementos culturais, políticos e sociais expressa nas variadas perspectivas de relacionamentos. Em se tratando dessa última questão, é importante destacar o sentido processual e as múltiplas temporalidades que envolvem a construção do imaginário da feira-livre pelo camponês. Esse continuum traz em si muito do jogo material e imaterial presente em seu modo de vida, cujas fronteiras estão claramente definidas pela "identidade social" (Haesbaert , 2007, p. 44).

Mesmo com a expansão dos supermercados, acredita-se que a feira-livre permanecerá como espaço-referência para o camponês de Livramento de Nossa Senhora que a associará, sempre, às estratégias políticas para manter a sua identidade cultural. Nesse sentido, concorda-se com Haesbaert (2007, p. 43-44) quando este afirma que "O conjunto de signos e de representações sociais criados para fortalecer uma identidade cultural pode incluir o próprio espaço - ainda que este carregue um conteúdo (uma 'aura de subjetividade') tanto positivo quanto negativo." Trata-se, para o camponês, de um espaço-símbolo propício à perpetuação de suas tradições.

(Não) concluindo

Sem dúvida as relações estabelecidas pelos indivíduos com o lugar revelam muito de seu modo de vida. No caso do camponês de Livramento de Nossa Senhora, o simples ato de ir à feira representa a possibilidade de fortalecer os aspectos simbólicos de sua identidade, na medida que o diálogo de saberes e sabores presentes naquele espaço representa  um importante meio de manutenção de suas tradições.

Como houve a preocupação, no transcorrer do texto, em deixar clarificado o fato de não se tratar de um estudo urbano, buscou-se abordar a feira-livre numa perspectiva que possibilitasse demonstrar como o camponês procura estabelecer, na cidade, formas de resistir aos processos homogeneizantes tão marcantes em tempos atuais. Como, de fato, a cultura não prima por fixidez e estabilidade, é importante que os grupos sociais mantenham algum tipo de identificação e valorização simbólica com o seu lugar de vivência.

A grande questão é: como o camponês continuará se relacionando com a feira-livre, pois as funções desse espaço são, cada vez mais, substituídas por estabelecimentos como os supermercados e as mercearias. Importa dizer que a feira-livre não se constitui apenas num lugar ao qual se vai para comprar e/ou vender, mas também um lugar de socialização de saberes e sabores de um modo de vida construído a partir de teias de relações centenárias, de valores sociais fundamentados numa ética camponesa.

Por último, pode-se reafirmar a dinamicidade da feira-livre que aglutina em seu interior valores e simbolismos diversos de uma sociedade desigual e contraditória. As múltiplas representações do modo de vida camponês presentes naquele espaço desvelam a sua vitalidade e denunciam o poder de recriação por parte do camponês, que procura ressignificar suas práticas como estratégia política contra os múltiplos processos de dominação a que está sujeito.

Notas



[1]Helena Angélica de Mesquita ,Professora do Programa de Mestrado em Geografia da Universidade Federal de Goiás/Campus Catalão. José Aparecido Lima Dourado, Mestrando em Geografia da Universidade Federal de Goiás/ Campus Catalão. Membro do Grupo de Pesquisa Geografia, Trabalho e Movimentos Sociais - GETeM. Professor Concursado da Rede Municipal de Livramento de Nossa Senhora (BA) e Professor Concursado da Rede Municipal de Rio do Antônio (BA).

[2]     O nome do camponês foi omitido a pedido do mesmo.

[3]     Mala feita com couro de boi curtido muito utilizada pelos sertanejos em suas viagens.

[4]     A fala do entrevistado foi transcrita em sua íntegra, mantendo a sua originalidade.

 

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Referencia bibliográfica

 

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<http://www.filo.uba.ar/contenidos/investigacion/institutos/geo/geocritica2010/296.htm>

 

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